A eleição de 2002 marcou uma mudança de ciclo na política paraibana. Depois de quase duas décadas de predominância do PMDB no Governo do Estado, Cássio Cunha Lima, então uma das principais lideranças políticas de Campina Grande, chegou ao Palácio da Redenção pelo PSDB ao derrotar Roberto Paulino no segundo turno. No sétimo episódio da série documental “Memória do Poder”, o Fonte83 revisita a primeira gestão de Cássio à frente da Paraíba, entre 2003 e 2006, período marcado pela promessa de modernização administrativa, retomada de investimentos, realização de obras de infraestrutura e pela consolidação de um novo grupo político no comando do Estado.

Capítulo 1 – Da prefeitura de Campina Grande ao Palácio da Redenção

A eleição de Cássio Cunha Lima em 2002 representou uma mudança importante na política paraibana. Aos 39 anos, o então prefeito de Campina Grande deixou a administração da segunda maior cidade do Estado para disputar o Governo da Paraíba pelo PSDB. Sua candidatura surgiu como expressão de uma força política que havia se consolidado em Campina Grande e que, desde o rompimento entre Ronaldo Cunha Lima e José Maranhão, passou a ocupar o principal espaço de oposição ao grupo que comandava o Palácio da Redenção. Depois de três mandatos à frente da Prefeitura de Campina Grande, Cássio chegou à disputa estadual com a imagem de uma liderança jovem e associada à renovação política.

A campanha, porém, esteve longe de ser tranquila. No primeiro turno, Cássio terminou na frente, mas não conseguiu ultrapassar a marca necessária para evitar uma nova votação. Roberto Paulino, que havia assumido o Governo da Paraíba em abril daquele ano após a renúncia de José Maranhão, terminou em segundo lugar. A diferença entre os dois era significativa, mas não definitiva: Cássio obteve 47,2% dos votos válidos, enquanto Paulino alcançou cerca de 40%. O segundo turno transformou a disputa em uma batalha pelo futuro político do Estado.

Cássio após a vitória nas eleições de 2002 – Foto: Arquivo / Rede Paraíba.

Em 27 de outubro de 2002, Cássio confirmou sua vitória. O tucano recebeu cerca de 51,4% dos votos válidos, contra 48,6% de Roberto Paulino — uma diferença de aproximadamente 46,8 mil votos. O resultado colocou fim ao longo domínio do PMDB no Governo da Paraíba e levou ao poder o grupo político ligado aos Cunha Lima. Cássio assumiria o cargo em janeiro de 2003 tendo como vice-governadora Lauremília Lucena e com a promessa de iniciar uma nova etapa administrativa no Estado.

A mudança não era apenas partidária. Cássio chegava ao Palácio da Redenção depois de construir sua imagem política em Campina Grande, onde havia governado por três mandatos. Sua experiência municipal passou a orientar parte do discurso de governo, baseado na modernização administrativa, recuperação da capacidade de investimento e retomada de obras. O novo governador também herdava um Estado que vinha de anos de dificuldades financeiras e prometia reorganizar as contas públicas para transformar o equilíbrio fiscal em capacidade de realizar investimentos. Era o começo de uma administração que procuraria combinar ajuste das finanças, infraestrutura e atração de investimentos.

Capítulo 2 – Arrumar a casa para voltar a investir

O primeiro desafio do governo Cássio foi financeiro. A nova administração assumiu em um cenário no qual o equilíbrio das contas públicas era apresentado como condição necessária para recuperar a capacidade de investimento do Estado. O governador adotou um discurso de controle das despesas e reorganização administrativa, procurando melhorar a situação fiscal e ampliar a capacidade do governo de executar obras. Anos depois, em balanço apresentado à Assembleia Legislativa, Cássio destacaria a evolução das contas públicas como uma das principais marcas de sua gestão.

A estratégia fiscal não significava abandonar os investimentos. Pelo contrário, o discurso oficial do governo apresentava o equilíbrio das contas como instrumento para permitir que o Estado voltasse a exercer seu papel de indutor do desenvolvimento. Na mensagem encaminhada à Assembleia em fevereiro de 2006, Cássio afirmou que a Paraíba havia avançado em infraestrutura, segurança, geração de empregos, atração de empresas e transformação econômica da zona rural. O governo também destacava o equilíbrio financeiro alcançado ao longo do primeiro mandato.

A administração também procurou estimular a economia por meio da atração de empresas e da criação de condições para novos investimentos. Nesse período, o governo estadual utilizou instrumentos fiscais para incentivar atividades econômicas e buscou ampliar a infraestrutura necessária à instalação de empreendimentos. Decretos publicados oficialmente pela Secretaria da Receita mostram a atuação do governo na regulamentação de incentivos e benefícios tributários destinados a determinados setores.

A preocupação com infraestrutura aparecia como complemento dessa estratégia. Estradas, barragens, saneamento, eletrificação e obras destinadas ao meio rural fizeram parte da agenda apresentada pelo governo. O objetivo era melhorar a circulação de pessoas e mercadorias, ampliar o acesso aos serviços públicos e criar condições para que investimentos privados chegassem a diferentes regiões. O primeiro mandato de Cássio começava, assim, sob uma lógica diferente daquela associada aos governos anteriores: primeiro reorganizar a máquina pública e as finanças; depois, utilizar essa capacidade recuperada para ampliar os investimentos.

Capítulo 3 – Obras, energia e desenvolvimento

Uma das características mais marcantes do primeiro governo Cássio foi a expansão da infraestrutura energética. A administração avançou na interiorização da eletrificação e trabalhou para ampliar as condições de fornecimento de energia para atividades produtivas. O governo também esteve associado à expansão do gás natural na Paraíba. Segundo o levantamento histórico Paraíba – Governos em Cena, o gasoduto foi ampliado de João Pessoa até Campina Grande durante a administração Cássio, criando uma nova alternativa energética para o Estado e para o setor industrial.

A política energética também se conectou com uma transformação que começava a aparecer no horizonte paraibano: a geração de energia eólica. O mesmo levantamento histórico registra que os primeiros parques produtores de energia eólica surgiram na Paraíba durante o governo Cássio. Ainda que o setor só viesse a adquirir uma dimensão muito maior nos anos seguintes, a implantação desses projetos representou o início de uma nova frente econômica para o Estado, especialmente nas regiões com maior potencial de geração a partir dos ventos.

No interior, a infraestrutura rural continuou sendo uma das preocupações do governo. Ações envolvendo estradas, barragens, saneamento e eletrificação procuravam diminuir as desigualdades entre a capital e os municípios menores. Registros da imprensa oficial do Estado também destacavam investimentos em infraestrutura e ações voltadas à agricultura familiar, incluindo distribuição de sementes e atuação da Emater. A intenção era combinar obras físicas com políticas destinadas a melhorar as condições de produção no campo.

O governo também buscou ampliar a capacidade de atração de empresas e investimentos. A mensagem de Cássio à Assembleia em 2006 destacava a chegada de grandes empresas e a geração de empregos como resultados de sua política econômica. A infraestrutura passou a ser apresentada não apenas como obra pública, mas como ferramenta para transformar a estrutura produtiva paraibana. Ao final do primeiro mandato, a administração procurava apresentar uma Paraíba mais preparada para receber investimentos e com uma situação financeira mais organizada.

Capítulo 4 – A reeleição e o começo da crise

A aprovação do governo e a força política construída por Cássio durante os primeiros anos da administração abriram caminho para uma nova candidatura em 2006. O governador buscaria a reeleição enfrentando novamente José Maranhão, agora de volta à disputa pelo Palácio da Redenção. A eleição recolocou frente a frente os dois grupos que haviam dominado a política paraibana desde o final dos anos 1990: de um lado, os Cunha Lima, que haviam conquistado o governo em 2002; do outro, o grupo maranhista, que pretendia recuperar o poder perdido quatro anos antes.

A disputa foi extremamente apertada. No primeiro turno, realizado em 1º de outubro de 2006, Cássio terminou novamente na frente, mas por uma diferença mínima: recebeu 49,67% dos votos válidos, enquanto Maranhão alcançou 48,74%. A diferença foi de apenas 0,93 ponto percentual, levando a eleição para o segundo turno. A campanha passou a ser marcada por acusações e forte polarização entre os dois grupos políticos.

No segundo turno, Cássio conseguiu confirmar a vantagem e foi reeleito governador da Paraíba. O resultado garantiu a continuidade de seu grupo no poder, mas o segundo mandato começaria sob forte pressão política e judicial. O Tribunal Regional Eleitoral da Paraíba posteriormente cassaria o mandato do governador e do vice em processos relacionados a condutas vedadas e abuso de poder político durante a campanha de 2006. Um dos casos ficou conhecido como Caso FAC; outro envolveu o jornal oficial A União.

O primeiro governo de Cássio Cunha Lima terminou, portanto, como havia começado: representando uma mudança no mapa político da Paraíba. A vitória de 2002 encerrou a hegemonia do PMDB e levou os Cunha Lima ao comando do Estado. Nos quatro anos seguintes, o governo procurou construir sua identidade a partir da reorganização fiscal, da retomada dos investimentos e da expansão da infraestrutura. A reeleição de 2006 demonstrou a força eleitoral alcançada pelo grupo, mas também abriu o período mais turbulento da trajetória de Cássio no Palácio da Redenção — uma crise política e judicial que acabaria, anos depois, retirando-o do cargo e devolvendo o governo a José Maranhão.

Série Especial | Memória do Poder
Uma produção documental do Fonte83 sobre os governos que marcaram a política paraibana desde a redemocratização.

Memória do Poder – Capítulo 1: Tarcísio Burity e o retorno da democracia

Memória do Poder – Capítulo 2: Ronaldo Cunha Lima, o poeta que chegou ao governo

Memória do Poder – Capítulo 3: Cícero Lucena e o governo de transição na Paraíba

Memória do Poder – Capítulo 4: Antônio Mariz e o governo interrompido

Memória do Poder – Capítulo 5: José Maranhão e o governo das águas

Memória do Poder – Capítulo 6: Roberto Paulino, o governo de transição e a eleição que quase mudou tudo

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