A história política da Paraíba é marcada por personagens, decisões e acontecimentos que ajudaram a moldar o Estado como ele é hoje. Pensando nisso, o Fonte83 inicia a série documental “Memória do Poder”, um especial que vai revisitar, em ordem cronológica, os governos eleitos desde a redemocratização brasileira. Ao longo das próximas semanas, serão apresentados o contexto de cada eleição, os principais desafios enfrentados por cada gestor, as obras realizadas, as crises políticas e o legado deixado por quem ocupou o Palácio da Redenção. O primeiro capítulo relembra a eleição de 1986 e o governo de Tarcísio Burity, primeiro governador eleito pelo voto popular na Paraíba após o fim do regime militar.
Capítulo 1 – A Paraíba volta às urnas
Em 15 de novembro de 1986, os paraibanos voltaram às urnas para escolher diretamente o governador do Estado pela primeira vez após o fim do regime militar. A eleição, que levou Tarcísio Burity (PMDB) ao Palácio da Redenção, ocorreu em meio ao processo de redemocratização do Brasil, à popularidade inicial do Plano Cruzado e à escolha dos parlamentares que elaborariam a Constituição Federal de 1988. O pleito marcou o início de uma nova fase política na Paraíba e reposicionou o Estado dentro do cenário democrático nacional.
O contexto nacional foi determinante para o resultado. Com a morte de Tancredo Neves antes da posse, José Sarney assumiu a Presidência da República e conduziu a transição democrática. No início de 1986, o lançamento do Plano Cruzado reduziu temporariamente a inflação e fortaleceu o PMDB em todo o país. Segundo o historiador e cientista político Flávio Lúcio Vieira, a eleição paraibana refletiu esse momento de entusiasmo com a redemocratização, já que o partido de Sarney conquistou a maioria dos governos estaduais naquele ano.
Na Paraíba, entretanto, a disputa também foi marcada por intensas articulações locais. O governador Wilson Braga pretendia fazer seu sucessor, enquanto o PMDB dividia-se entre a candidatura do prefeito de Campina Grande, Ronaldo Cunha Lima, e o ex-governador Tarcísio Burity. De acordo com Flávio Lúcio, a avaliação de que Burity reunia melhores condições eleitorais levou Ronaldo a desistir da disputa e permanecer na Prefeitura, abrindo caminho para que o ex-deputado federal unificasse a oposição e enfrentasse o candidato governista Marcondes Gadelha.
A vitória de Burity simbolizou mais do que a alternância de poder. Depois de já ter governado a Paraíba por indicação durante o regime militar, ele retornava ao comando do Estado agora legitimado pelo voto popular. O desafio, contudo, começaria logo após a posse, em março de 1987, quando precisaria enfrentar a crise econômica nacional, reorganizar a administração estadual e administrar as primeiras divergências dentro do próprio grupo político que o elegeu.
Capítulo 2 – O governador da redemocratização assume o Estado
Ao tomar posse em 15 de março de 1987, Tarcísio Burity iniciou seu primeiro governo eleito pelo voto popular em um cenário de grandes expectativas e enormes desafios. A Paraíba vivia o início da redemocratização, enquanto o Brasil enfrentava instabilidade econômica provocada pela hiperinflação. Além da crise financeira, Burity assumiu o Palácio da Redenção sem o vice-governador eleito, Raimundo Asfora, que morreu nove dias antes da posse, vítima de um disparo de arma de fogo, deixando a administração estadual sem substituto constitucional imediato.
Com formação acadêmica incomum para um governador da época, Burity buscou imprimir um perfil técnico à administração. Advogado, sociólogo, doutor em Ciência Política e professor da Universidade Federal da Paraíba, ele priorizou áreas como infraestrutura, cultura, habitação, turismo e abastecimento de água. A experiência acumulada como governador entre 1979 e 1982 também lhe permitiu retornar ao governo com uma equipe experiente e um plano administrativo já estruturado.
Os primeiros meses da gestão foram marcados por um ambiente político delicado. Embora eleito pelo PMDB, partido que liderava a redemocratização no país, Burity rapidamente passou a conviver com divergências internas. Segundo o historiador e cientista político Flávio Lúcio Vieira, setores ligados ao prefeito de Campina Grande, Ronaldo Cunha Lima, demonstravam insatisfação com o espaço ocupado pelo governador dentro da legenda, dando início a disputas que acompanhariam boa parte do mandato.
Mesmo diante das dificuldades políticas e econômicas, Burity iniciou uma administração que ficaria marcada pelo volume de investimentos públicos realizados ao longo dos quatro anos seguintes. Obras de infraestrutura, equipamentos culturais, programas habitacionais e ações voltadas ao turismo começariam a redesenhar diferentes regiões do estado, consolidando um governo que, décadas depois, ainda é lembrado tanto pelas realizações quanto pelos embates políticos que protagonizou.




