A passagem de Cícero Lucena pelo Governo da Paraíba marcou uma breve transição no comando do Estado e abriu caminho para uma nova disputa pelo Palácio da Redenção. No quarto episódio da série documental “Memória do Poder”, o Fonte83 revisita a trajetória de Antônio Mariz, eleito governador em 1994 após derrotar Lúcia Braga no segundo turno. A reportagem resgata a longa trajetória política de Mariz, sua atuação na redemocratização, a experiência como senador e relator do impeachment de Fernando Collor, além dos projetos e das prioridades de seu curto mandato, interrompido pela morte do governador em setembro de 1995.

Capítulo 1 – Da política em Sousa ao Palácio da Redenção

A trajetória de Antônio Mariz na política paraibana começou muito antes de sua chegada ao Governo do Estado. Em 1963, ainda jovem, foi eleito prefeito de Sousa pelo Partido Trabalhista Brasileiro (PTB), em uma disputa apertada contra Filinto da Costa Gadelha, da UDN, e Laércio Pires, do PSD. Venceu inicialmente por apenas dez votos e, após uma recontagem solicitada pelos adversários, a diferença caiu para sete. Durante a campanha, apresentou um discurso considerado inovador para a época, defendendo direitos trabalhistas, salário mínimo, reforma agrária e transparência na administração pública. Já no exercício do cargo, passou a prestar contas diariamente das receitas e despesas da Prefeitura pela rádio Difusora Rio do Peixe.

A experiência no Executivo municipal, porém, foi interrompida pelo golpe militar de 1964. Acusado de apoiar João Goulart e de possuir vínculos com ideias consideradas subversivas pelos seus adversários, Mariz foi afastado, preso e submetido a um Inquérito Policial-Militar. Depois de pouco tempo, retornou à Prefeitura. Com a extinção dos partidos políticos e a criação da Arena e do MDB pelo regime militar, acabou filiando-se à Arena, embora sua atuação posterior na Câmara dos Deputados fosse marcada por posições independentes e críticas ao próprio regime.

Sua trajetória nacional ganhou força a partir de 1970, quando foi eleito deputado federal e passou a integrar o grupo de parlamentares arenistas conhecido como “grupo renovador”. Mariz se posicionou contra a indicação de João Figueiredo para suceder Ernesto Geisel e apoiou o general Euler Bentes Monteiro, candidato da oposição. Também defendeu a ampliação das liberdades políticas e os direitos humanos. Em 1978, chegou a disputar dentro da própria Arena a indicação para o Governo da Paraíba contra Tarcísio Burity, escolhido pelos militares. Derrotado na convenção, passou a construir definitivamente sua trajetória na oposição e, em 1982, disputou o Governo do Estado pelo PMDB, mas foi derrotado por Wilson Braga.

A redemocratização aproximaria Mariz novamente do centro das decisões nacionais. Em 1986, foi eleito deputado federal com a maior votação da Paraíba e participou da Assembleia Nacional Constituinte, onde presidiu a Subcomissão dos Direitos e Garantias Individuais. Em 1990, elegeu-se senador e, dois anos depois, ganhou projeção nacional ao atuar como relator do processo de impeachment de Fernando Collor. Quando chegou ao Palácio da Redenção, em 1995, portanto, Mariz não era um novato na política: carregava mais de três décadas de vida pública e uma trajetória marcada pela transformação de um político inicialmente ligado ao regime militar em uma das vozes da redemocratização brasileira.

Capítulo 2 – A eleição de 1994

A eleição de 1994 colocou Antônio Mariz novamente no centro da política paraibana. Depois da renúncia de Ronaldo Cunha Lima para disputar o Senado, o vice-governador Cícero Lucena assumiu o Palácio da Redenção e permaneceu no cargo até o início da sucessão. Mariz entrou na disputa pelo PMDB em uma eleição que também tinha como pano de fundo uma transformação nacional: o lançamento do Plano Real e a estabilização da economia modificavam o ambiente político brasileiro e davam ao eleitor novas expectativas para os governos que seriam eleitos naquele ano.

No primeiro turno, Mariz avançou para a etapa decisiva da disputa contra Lúcia Braga, candidata do PDT e esposa do ex-governador Wilson Braga. A eleição colocou frente a frente duas importantes forças da política paraibana. De um lado, o candidato peemedebista carregava uma longa trajetória política, experiência parlamentar e projeção nacional. Do outro, Lúcia Braga representava uma das famílias mais tradicionais do poder estadual e tinha sua própria trajetória política, incluindo a passagem pelo Senado Federal e a atuação como primeira-dama durante o governo Wilson Braga.

No segundo turno, Mariz venceu com uma vantagem superior a 222 mil votos. A vitória também foi acompanhada pelo sucesso de seus companheiros de chapa: Ronaldo Cunha Lima e Humberto Lucena foram eleitos para o Senado Federal. O resultado devolvia o comando do Estado ao grupo político que havia chegado ao poder com Ronaldo em 1990 e consolidava o PMDB como uma das principais forças da política paraibana durante os primeiros anos da Nova República.

A chegada de Mariz ao governo, entretanto, esteve cercada por uma controvérsia eleitoral. Um recurso apresentado ao Tribunal Regional Eleitoral da Paraíba questionou a utilização da gráfica do Senado para a impressão de material de campanha. A disputa jurídica quase colocou em risco sua vitória, mas o resultado acabou sendo mantido. Em janeiro de 1995, Antônio Mariz tomou posse como governador da Paraíba, iniciando uma administração que ele próprio definiu a partir de uma expressão: Governo da Solidariedade.

Capítulo 3 – O Governo da Solidariedade

No discurso de posse, Mariz apresentou uma agenda voltada principalmente à população mais pobre. A administração estabeleceu como prioridades a melhoria da rede pública de saúde, a expansão da educação e a instalação de bibliotecas em diferentes regiões do Estado. Também colocou entre suas preocupações a situação dos servidores públicos e a geração de emprego e renda, buscando fortalecer iniciativas como o Projeto Meio de Vida. A proposta era associar a atuação do Estado à redução da pobreza e à ampliação das oportunidades econômicas.

Na área agrícola, o governador defendia a recuperação das lavouras tradicionais e a adoção de técnicas capazes de aumentar a produtividade e diminuir os efeitos da irregularidade climática. Nesse contexto, uma das iniciativas de maior alcance foi a articulação com o Governo Federal para a construção de um canal destinado a levar águas do sistema Coremas–Mãe d’Água para as várzeas de Sousa. O projeto buscava ampliar a disponibilidade de água e criar melhores condições para o desenvolvimento da agricultura no sertão paraibano.

Mariz também procurou fortalecer a indústria como instrumento de geração de emprego e renda. A estratégia fazia parte de uma concepção mais ampla de desenvolvimento, na qual o combate à pobreza não deveria depender apenas da assistência pública, mas também da capacidade de criar oportunidades econômicas. A preocupação com saúde, educação, agricultura e trabalho revelava uma administração que pretendia imprimir uma agenda social ao Estado, embora o curto período de governo tenha limitado a execução de muitos dos projetos planejados.

Mesmo em apenas alguns meses, Mariz procurou deixar marcas simbólicas na administração. Logo no início do mandato, determinou a substituição do piso do terraço do Palácio da Redenção onde havia um mosaico com uma suástica, símbolo associado ao nazismo. A iniciativa foi carregada de significado em uma trajetória política marcada pela defesa das liberdades democráticas. Em março de 1995, o governador também foi admitido pelo presidente Fernando Henrique Cardoso na Ordem do Mérito Militar, no grau de Grande-Oficial especial.

Capítulo 4 – Um governo interrompido

O projeto político e administrativo de Antônio Mariz, porém, seria interrompido poucos meses depois de sua posse. O governador enfrentava problemas de saúde e, após a conclusão do processo de impeachment de Fernando Collor, havia sentido os primeiros sintomas dos cânceres de intestino e pulmão que posteriormente agravariam seu estado clínico. Mesmo doente, permaneceu à frente do Governo da Paraíba e continuou conduzindo uma administração que ainda estava em fase de implantação.

Em 16 de setembro de 1995, Antônio Mariz morreu na Granja Santana, residência oficial do governador, vítima de uma parada cardíaca. Tinha 56 anos. Sua morte encerrou prematuramente um governo que havia começado apenas oito meses antes e interrompeu uma trajetória política que atravessara diferentes períodos da história brasileira: o período democrático anterior a 1964, a ditadura militar, a abertura política, a Constituinte e a consolidação da Nova República.

Com a morte de Mariz, o vice-governador José Maranhão assumiu o comando do Estado e concluiu o mandato. A sucessão representou uma nova mudança na política paraibana e abriu caminho para outro período importante da história do PMDB estadual. Para Mariz, entretanto, não houve tempo suficiente para que o programa anunciado na posse fosse plenamente executado. Seu governo acabou sendo definido mais pelas intenções, prioridades e projetos lançados do que pela capacidade de concluir uma grande agenda de obras.

A passagem de Antônio Mariz pelo Palácio da Redenção ocupa, por isso, um espaço singular na memória política da Paraíba. Foi um governo curto, interrompido pela morte de seu titular, mas conduzido por um personagem cuja trajetória simbolizava as contradições e transformações políticas do país ao longo de mais de três décadas. Do jovem prefeito de Sousa perseguido após o golpe de 1964 ao senador que relatou o impeachment de Collor e, finalmente, ao governador que defendia um Governo da Solidariedade, Mariz chegou ao fim de sua vida pública como uma das figuras mais complexas da política paraibana do século XX.

Série Especial | Memória do Poder
Uma produção documental do Fonte83 sobre os governos que marcaram a política paraibana desde a redemocratização.

Memória do Poder Capítulo 1: Tarcísio Burity e o retorno da democracia

Memória do Poder – Capítulo 2: Ronaldo Cunha Lima, o poeta que chegou ao governo

Memória do Poder – Capítulo 3: Cícero Lucena e o governo de transição na Paraíba

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