A reeleição de José Maranhão, em 1998, consolidou sua liderança política e deu início a um novo ciclo no comando da Paraíba, mas também aprofundou as disputas que dividiam o grupo que havia chegado ao poder na década anterior. No sexto episódio da série documental “Memória do Poder”, o Portal Fonte83 revisita a trajetória de Roberto Paulino, que assumiu o Palácio da Redenção em abril de 2002 após a renúncia de Maranhão para disputar o Senado Federal. A reportagem resgata os poucos meses de um governo marcado pela continuidade administrativa, a candidatura construída às vésperas da eleição e a disputa acirrada contra Cássio Cunha Lima, que terminou com uma diferença de menos de 47 mil votos e encerrou o longo domínio do PMDB no Governo da Paraíba.
Capítulo 1 – De Guarabira ao Palácio da Redenção
A trajetória de Roberto Paulino na política paraibana começou em Guarabira, município onde construiu sua principal base eleitoral. Natural da cidade, iniciou sua carreira como prefeito, eleito em 1976 para um mandato iniciado em 1977, e voltou ao cargo posteriormente. Ao longo das décadas seguintes, ampliou sua atuação para o Legislativo, elegendo-se deputado estadual e, em 1994, deputado federal. A experiência acumulada no Executivo municipal e no Congresso Nacional transformou Paulino em uma das principais lideranças políticas do Brejo paraibano.
A aproximação definitiva com o Governo do Estado ocorreu em 1998. Filiado ao então PMDB, Paulino foi escolhido por José Maranhão para compor a chapa que disputaria a reeleição ao Palácio da Redenção. A vitória de Maranhão no primeiro turno consolidou a aliança entre os dois políticos e colocou Paulino na vice-governadoria durante o segundo mandato do governador. Por quase quatro anos, ele permaneceu como vice, até que uma decisão de Maranhão mudaria completamente seu destino político.

Em 2002, José Maranhão decidiu deixar o Governo da Paraíba para disputar uma das vagas ao Senado Federal. A renúncia ocorreu em 5 de abril, fazendo com que Roberto Paulino assumisse o comando do Estado. A sucessão estava prevista constitucionalmente e, inicialmente, a missão do novo governador parecia relativamente simples: concluir os últimos meses do mandato e garantir a continuidade administrativa até a posse do sucessor eleito naquele ano.
Na posse, Paulino adotou justamente esse discurso de continuidade. Sem romper com a administração anterior, anunciou que pretendia manter os projetos em andamento e dar atenção especial ao interior da Paraíba. O novo governador chegou a defender um “governo itinerante”, numa proposta de aproximar o Palácio da Redenção dos municípios e das comunidades. O que parecia ser apenas uma passagem de poucos meses pelo cargo, entretanto, acabaria se transformando em uma candidatura ao Governo do Estado e em uma das eleições mais disputadas da história recente da Paraíba.
Capítulo 2 – Um governo de transição
Roberto Paulino assumiu o governo em um momento de mudanças profundas na política brasileira. O ano de 2002 seria marcado pela eleição presidencial que levou Luiz Inácio Lula da Silva ao Palácio do Planalto e pela disputa entre diferentes projetos políticos nos estados. Na Paraíba, Paulino herdou uma administração que vinha sendo conduzida por Maranhão e procurou preservar a agenda de obras e programas já estabelecida. Seu governo, por isso, foi muito mais marcado pela continuidade do que pela criação de uma nova plataforma administrativa.
Entre as áreas priorizadas estavam infraestrutura, recursos hídricos e programas sociais. A administração continuou projetos que vinham sendo executados durante os anos anteriores, sobretudo obras destinadas ao abastecimento de água e à infraestrutura do interior. A curta duração do mandato — pouco menos de nove meses — limitava a possibilidade de implantação de grandes programas próprios, mas Paulino procurou utilizar o período para acompanhar obras, manter serviços públicos e reforçar a presença do governo nos municípios.

Roberto Paulino em encontro com o presidente Lula, em 2002.
O contexto político, porém, era mais complicado. O grupo liderado por José Maranhão havia declarado apoio à candidatura presidencial de Lula, enquanto a eleição estadual começava a se organizar em torno de forças que buscavam interromper a longa predominância do PMDB no Governo da Paraíba. Segundo levantamento histórico do período, o governo enfrentava dificuldades decorrentes da redução de repasses federais, acrescentando uma dimensão econômica às dificuldades políticas que cercavam a administração.
Paulino, portanto, governava enquanto também precisava decidir se continuaria na disputa eleitoral. A princípio, ele não era o candidato planejado pelo grupo. O nome escolhido para disputar o Governo do Estado era o senador Ney Suassuna. A desistência de Suassuna, entretanto, alterou completamente o cenário. Com a eleição se aproximando e Paulino já ocupando o Palácio da Redenção, o vice que havia assumido o cargo apenas para concluir o mandato de Maranhão acabou sendo escolhido para tentar permanecer no governo pelas urnas.
Capítulo 3 – A candidatura que nasceu da crise
A candidatura de Roberto Paulino surgiu, portanto, de uma mudança de última hora. O próprio ex-governador recordou posteriormente que não pretendia disputar o cargo naquele ano e que sua intenção inicial era apenas assumir o governo após a saída de Maranhão. A desistência de Ney Suassuna obrigou o grupo a procurar uma alternativa, e Paulino acabou sendo colocado no centro da disputa poucos meses antes do primeiro turno.
Do outro lado estava Cássio Cunha Lima, então prefeito de Campina Grande e candidato do PSDB. Aos 39 anos, Cássio representava uma nova geração da família Cunha Lima e chegava à disputa depois de três mandatos como prefeito da segunda maior cidade da Paraíba. A eleição colocava, assim, frente a frente duas forças políticas com características distintas: de um lado, a máquina estadual e a tradição do PMDB; do outro, a oposição liderada por Cássio, que buscava encerrar o ciclo de domínio peemedebista no Palácio da Redenção.

Debate do segundo turno das eleições em 2002 – Foto: Arquivo/TV Cabo Branco.
A campanha começou com Cássio aparecendo como favorito. As pesquisas apontavam uma vantagem confortável para o tucano, mas o resultado das urnas foi muito mais equilibrado do que o esperado. No primeiro turno, realizado em 6 de outubro de 2002, Cássio terminou na liderança, com 752.297 votos, ou 47,2% dos votos válidos. Roberto Paulino ficou em segundo, com 637.239 votos, equivalentes a 40%. O petista Avenzoar Arruda terminou em terceiro, com 12,6%, enquanto Alexandre Arruda, do PSTU, e Lourdes Sarmento, do PCO, tiveram votações residuais.
O resultado transformou uma candidatura que havia surgido quase por acaso em uma disputa real pelo Governo da Paraíba. Paulino havia conseguido reduzir uma diferença que parecia difícil de superar e levou o confronto para o segundo turno. A campanha ganhou ainda um componente pessoal dramático: sua esposa, Fátima Paulino, sofreu um grave acidente automobilístico quando seguia para um comício em Santa Rita. Segundo o relato do próprio ex-governador, ela ficou em coma e precisou passar por dezenas de cirurgias, afetando diretamente a campanha naquele momento decisivo.
Capítulo 4 – A derrota por menos de 50 mil votos
O segundo turno transformou a eleição paraibana em uma das disputas mais apertadas desde a redemocratização. De um lado, Cássio Cunha Lima tentava confirmar o favoritismo demonstrado no primeiro turno e levar o PSDB ao comando do Estado. Do outro, Roberto Paulino buscava transformar a força da máquina estadual e a mobilização do PMDB em uma virada eleitoral. O confronto também carregava um significado histórico: uma vitória de Paulino representaria a continuidade do grupo que havia controlado o Governo da Paraíba durante boa parte dos anos anteriores; uma vitória de Cássio significaria a chegada dos Cunha Lima ao Palácio da Redenção.
A votação ocorreu em 27 de outubro de 2002. Cássio venceu, mas por uma margem muito menor do que a registrada no primeiro turno. O tucano recebeu 889.922 votos, correspondentes a 51,4% dos votos válidos, enquanto Roberto Paulino alcançou 843.127 votos, ou 48,6%. A diferença foi de 46.795 votos. Em termos proporcionais, pouco menos de três pontos separaram os candidatos.

Roberto Paulino votando no segundo turno de 2002 – Arquivo / Rede Paraíba
O resultado encerrou um ciclo de quase duas décadas de vitórias do PMDB nas eleições para o Governo da Paraíba. Paulino havia chegado à candidatura apenas quatro meses antes do primeiro turno e, mesmo partindo de uma posição inicialmente desfavorável, conseguiu levar a disputa até o limite. Após a derrota, afirmou considerar-se vitorioso pelo desempenho alcançado durante a campanha e agradeceu aos eleitores e à militância. Cássio, por sua vez, assumiu o governo em janeiro de 2003, iniciando uma nova etapa da história política paraibana.
O governo de Roberto Paulino ficou, assim, marcado por uma característica singular: foi curto, nasceu de uma sucessão constitucional e terminou antes que seu titular pudesse consolidar uma agenda própria de longo prazo. Ainda assim, seus nove meses no Palácio da Redenção foram decisivos para a história política da Paraíba. A candidatura que surgiu da desistência de Ney Suassuna quase conseguiu manter o PMDB no poder e transformou uma eleição que parecia encaminhada em uma disputa decidida por menos de 47 mil votos. Para a Paraíba, o resultado representou muito mais do que a derrota de um candidato: marcou a transferência do poder estadual do grupo Maranhão para os Cunha Lima, abrindo o caminho para o primeiro governo de Cássio Cunha Lima.
Série Especial | Memória do Poder
Uma produção documental do Fonte83 sobre os governos que marcaram a política paraibana desde a redemocratização.
Memória do Poder – Capítulo 1: Tarcísio Burity e o retorno da democracia
Memória do Poder – Capítulo 2: Ronaldo Cunha Lima, o poeta que chegou ao governo
Memória do Poder – Capítulo 3: Cícero Lucena e o governo de transição na Paraíba
Memória do Poder – Capítulo 4: Antônio Mariz e o governo interrompido
Memória do Poder – Capítulo 5: José Maranhão e o governo das águas




