A eleição de Ricardo Coutinho para o Governo da Paraíba, em 2010, representou uma mudança importante no cenário político do Estado. Depois de dois mandatos à frente da Prefeitura de João Pessoa, o então candidato do PSB derrotou José Maranhão em uma das disputas mais acirradas da história recente paraibana e chegou ao Palácio da Redenção defendendo um novo modelo de gestão. Nos oito anos seguintes, entre 2011 e 2018, Ricardo comandou um ciclo marcado pela ampliação dos investimentos públicos, grandes obras de infraestrutura, interiorização dos serviços, participação popular e também por conflitos com servidores, instituições e adversários políticos. No oitavo episódio da série documental “Memória do Poder”, o Fonte83 revisita a trajetória dos dois governos de Ricardo Coutinho e os acontecimentos que marcaram sua passagem pelo comando da Paraíba.
1. A chegada ao Palácio da Redenção
Ricardo Coutinho construiu sua trajetória política fora dos tradicionais grupos que durante décadas disputaram o Governo da Paraíba. Ex-dirigente estudantil, deputado estadual e prefeito de João Pessoa por dois mandatos, o socialista ganhou força política a partir da capital e chegou à eleição de 2010 como uma alternativa ao grupo liderado por José Maranhão. A disputa também contou com a força política do então senador Cássio Cunha Lima, que apoiou Ricardo naquele momento, formando uma aliança decisiva para a vitória. No segundo turno, Ricardo obteve 53,70% dos votos válidos e derrotou Maranhão, encerrando mais um ciclo de disputas entre grupos tradicionais pelo comando do Estado.
A posse, em janeiro de 2011, representou o início de uma administração que prometia levar para toda a Paraíba algumas das experiências desenvolvidas por Ricardo na Prefeitura de João Pessoa. Entre elas estava o Orçamento Democrático, instrumento utilizado para aproximar a população das decisões sobre investimentos públicos. No Estado, o modelo foi ampliado para os 223 municípios e passou a organizar grandes plenárias regionais, nas quais moradores apresentavam demandas diretamente ao governo. A iniciativa se tornou uma das principais marcas políticas da nova administração.

Ricardo Coutinho durante entrevista, ainda como prefeito de João Pessoa. – Foto / Reprodução
O início do governo, entretanto, esteve longe de ser tranquilo. Ricardo encontrou dificuldades financeiras, promoveu mudanças administrativas e enfrentou resistência de setores do funcionalismo e da Assembleia Legislativa. O governo adotou medidas para reduzir despesas e reorganizar as contas, enquanto servidores reagiram às mudanças. Nos primeiros meses de gestão, diferentes categorias entraram em greve, criando um ambiente de tensão que acompanharia parte do primeiro mandato.
Ao mesmo tempo, a administração começou a estruturar um amplo programa de investimentos. Estradas, hospitais, abastecimento de água, escolas e programas de geração de renda passaram a ocupar espaço central na agenda. A ideia era recuperar a capacidade de investimento do Estado e, principalmente, levar obras para regiões que historicamente reclamavam da falta de infraestrutura.
2. Estradas, água e a interiorização das obras
Entre as principais marcas dos oito anos de Ricardo Coutinho esteve o investimento na malha rodoviária. O Programa Caminhos da Paraíba foi criado ainda no primeiro mandato com o objetivo de pavimentar novas rodovias e recuperar trechos deteriorados. A proposta também buscava retirar do isolamento municípios que ainda dependiam de estradas de terra para se conectar a outras cidades. Em 2016, o governo informava ter investido R$ 1,28 bilhão no programa, contemplando 2.432 quilômetros de rodovias.
A dimensão do programa transformou as estradas em uma das principais vitrines da gestão. Municípios do Cariri, Curimataú, Sertão e outras regiões passaram a receber pavimentação de acessos, recuperação de rodovias e construção de contornos urbanos. Obras como a PB-214, entre Sumé e Congo, e diversos outros trechos foram apresentadas pelo governo como parte de uma política de integração territorial. Em 2011, por exemplo, o Estado anunciava investimentos de R$ 350 milhões em 31 rodovias, totalizando 860 quilômetros de estradas.

Ricardo no ODE, em 2017. – Foto: Governo da Paraíba
A questão hídrica também ocupou posição estratégica. O governo avançou em adutoras, barragens e sistemas de abastecimento e articulou grandes projetos, entre eles o Canal Acauã-Araçagi, inserido no sistema das Vertentes Litorâneas. A segurança hídrica ganhou ainda mais importância diante das sucessivas estiagens que atingiam o interior paraibano. A gestão também investiu em sistemas de abastecimento e obras destinadas a comunidades rurais.
Na infraestrutura urbana, João Pessoa e Campina Grande receberam intervenções importantes. Na capital, o Trevo das Mangabeiras se tornou uma das principais obras de mobilidade do período, enquanto outras cidades receberam contornos, acessos e intervenções viárias. O conjunto de obras ajudou a construir uma das principais características da administração Ricardo Coutinho: a presença do governo estadual em municípios de diferentes portes e regiões.
3. Saúde, educação e programas sociais
A saúde foi outro eixo importante dos dois governos. A administração buscou ampliar e descentralizar a rede hospitalar, com investimentos em unidades fora de João Pessoa e Campina Grande. O Hospital de Trauma de Campina Grande, cuja construção havia atravessado governos anteriores, passou a funcionar durante a gestão Ricardo Coutinho. O governo também entregou ou ampliou estruturas hospitalares em outras regiões, como o Hospital Geral de Mamanguape, reforçando o discurso de interiorização dos serviços públicos.
Na educação, o governo promoveu reformas, ampliações e construções de escolas, além de implantar programas voltados para melhoria da estrutura da rede estadual. O modelo das Escolas Cidadãs e, posteriormente, das Escolas Cidadãs Integrais, passou a ganhar espaço na política educacional paraibana. Entre 2011 e 2017, mais de 200 escolas estaduais foram reformadas ou ampliadas, segundo dados divulgados pelo próprio governo.
Outro programa associado à administração foi o Empreender-PB, criado para oferecer crédito e estimular pequenos negócios. A iniciativa fazia parte de uma estratégia mais ampla de geração de emprego e renda, ao lado de ações voltadas para agricultura familiar e desenvolvimento regional. O governo também manteve o Orçamento Democrático como instrumento permanente de diálogo com a população, transformando as plenárias em eventos políticos importantes nas diferentes regiões do Estado.
Os investimentos continuaram mesmo diante das dificuldades econômicas enfrentadas pelo país durante a segunda metade da década. Em 2015, por exemplo, o governo informava aproximadamente R$ 826 milhões investidos em obras desde o início da administração. Já em 2018, ano de encerramento do segundo mandato, o Estado anunciou um pacote de mais de 200 obras, incluindo a primeira etapa da Adutora Transparaíba e o Hospital de Oncologia de Patos, conhecido como Hospital do Bem.
4. A reeleição e a consolidação do projeto político
A eleição de 2014 colocou Ricardo Coutinho novamente diante de uma disputa decisiva. O principal adversário era justamente Cássio Cunha Lima, que havia sido seu aliado quatro anos antes. A aliança construída em 2010 havia se rompido, e os dois grupos passaram a disputar diretamente o comando político da Paraíba. A eleição terminou em segundo turno, com Ricardo conseguindo renovar o mandato e permanecer no Palácio da Redenção até o fim de 2018. A vitória consolidou o PSB como uma das principais forças políticas do Estado.
O segundo mandato começou com uma relação diferente com a Assembleia Legislativa. Depois dos conflitos registrados nos primeiros anos, o governo passou a contar com uma situação política mais confortável, o que facilitou a aprovação de projetos e a continuidade das obras. A gestão também ampliou programas iniciados anteriormente e passou a apostar em novas intervenções de mobilidade, educação, saúde e segurança hídrica.

Ricardo Coutinho comemora reeleição em 2014. – Foto: Reprodução
Na capital, o Trevo das Mangabeiras foi uma das obras de maior destaque. O governo também avançou na construção do Viaduto Eduardo Campos, no Geisel, e em intervenções de mobilidade em diferentes municípios. No interior, o Caminhos da Paraíba continuou recebendo investimentos, enquanto novas barragens, adutoras, escolas e hospitais foram entregues. Em 2018, somente um pacote anunciado pelo governo previa cerca de R$ 360 milhões em investimentos em 70 obras.
O segundo mandato também foi marcado por conflitos. A relação com categorias do funcionalismo e com instituições como a Universidade Estadual da Paraíba gerou episódios de tensão. Ao mesmo tempo, a gestão enfrentava um cenário econômico nacional mais difícil, com a crise que atingiu o país a partir de 2014. Ainda assim, Ricardo manteve o ritmo de inaugurações e investimentos até o último ano de governo, sustentando a imagem de uma administração fortemente baseada em obras públicas.
5. O fim do ciclo e os desdobramentos
Ricardo Coutinho permaneceu no cargo até 31 de dezembro de 2018, encerrando oito anos consecutivos à frente do Governo da Paraíba. Ao deixar o Palácio da Redenção, seu grupo político havia construído uma estrutura de poder consolidada e uma forte identidade administrativa, baseada principalmente na expansão da infraestrutura, na interiorização dos serviços e em programas de participação popular. O próprio ex-governador definiu o segundo mandato como uma consolidação das políticas iniciadas nos primeiros quatro anos.
A saída de Ricardo também marcou uma transição importante. Diferentemente do que havia ocorrido em outros momentos da história recente da Paraíba, o governador não deixou o cargo para disputar imediatamente uma nova eleição ao Executivo estadual. A gestão foi sucedida por João Azevêdo, então vice-governador e integrante do mesmo grupo político, que venceu a eleição de 2018 ainda no primeiro turno. Com isso, o projeto político iniciado por Ricardo em 2011 conseguiu permanecer no comando do Estado por mais quatro anos.
O legado dos oito anos, porém, passou a ser discutido sob diferentes perspectivas. Para aliados, Ricardo modernizou a administração, recuperou a capacidade de investimento do Estado e levou obras estruturantes para regiões historicamente esquecidas. Entre as marcas apontadas estão a expansão da malha rodoviária, investimentos em segurança hídrica, novos hospitais e escolas e programas como o Orçamento Democrático e o Empreender-PB. Para adversários, permaneceram críticas relacionadas à condução administrativa, aos conflitos com servidores e à forma de relacionamento político adotada pelo governo.
Ao longo de oito anos, Ricardo Coutinho saiu da condição de liderança emergente da capital para se tornar um dos personagens centrais da política paraibana no século XXI. Sua passagem pelo Palácio da Redenção alterou alianças, fortaleceu uma nova geração política e deixou obras e programas que ainda fazem parte da estrutura administrativa do Estado. Ao mesmo tempo, os conflitos e os acontecimentos posteriores ao seu governo mostraram que o ciclo iniciado em 2011 seria lembrado não apenas pelas transformações promovidas na gestão pública, mas também pelas disputas que continuaram a repercutir depois de sua saída.
Série Especial | Memória do Poder
Uma produção documental do Fonte83 sobre os governos que marcaram a política paraibana desde a redemocratização.
Memória do Poder – Capítulo 1: Tarcísio Burity e o retorno da democracia
Memória do Poder – Capítulo 2: Ronaldo Cunha Lima, o poeta que chegou ao governo
Memória do Poder – Capítulo 3: Cícero Lucena e o governo de transição na Paraíba
Memória do Poder – Capítulo 4: Antônio Mariz e o governo interrompido
Memória do Poder – Capítulo 5: José Maranhão e o governo das águas
Memória do Poder – Capítulo 7: Cássio Cunha Lima e a mudança de ciclo na Paraíba



