A chegada de Lucas Ribeiro ao Governo da Paraíba, em 2026, marcou a sucessão de um projeto político construído ao longo de sete anos, mas também abriu espaço para a construção de uma trajetória própria no comando do Estado. Escolhido por João Azevêdo para compor a chapa governista nas eleições de 2022, o então vice-governador assumiu o Palácio da Redenção em 2 de abril de 2026, após a renúncia de Azevêdo para disputar uma vaga no Senado. Lucas passou a comandar a Paraíba em um momento de transição política, com grandes obras em andamento, investimentos em diferentes áreas e uma eleição estadual no horizonte. No décimo e último episódio da série documental “Memória do Poder”, o Fonte83 revisita a trajetória de Lucas Ribeiro até o Governo do Estado, sua chegada ao cargo, as primeiras medidas da gestão e os desafios de conduzir a Paraíba durante um dos períodos mais importantes do calendário político estadual.

1. Da vice-governadoria ao Palácio da Redenção

A história de Lucas Ribeiro no Governo da Paraíba começou antes mesmo de ele ocupar a cadeira de governador. O advogado, mestre em Desenvolvimento Regional e doutorando em Políticas Públicas chegou ao Palácio da Redenção após uma trajetória construída inicialmente em Campina Grande, onde foi vereador, secretário municipal de Ciência, Tecnologia e Inovação e vice-prefeito. Em 2022, foi escolhido para compor a chapa de João Azevêdo como candidato a vice-governador e venceu a eleição ao lado do então governador. Quatro anos depois, a sucessão se concretizou: em 2 de abril de 2026, João Azevêdo renunciou ao cargo para disputar uma vaga no Senado, e Lucas assumiu o Governo da Paraíba. A mudança marcou a primeira sucessão desse tipo no Estado desde 2002, quando Roberto Paulino assumiu após a saída de José Maranhão.

João Azevêdo passa a faixa de governador para Lucas Ribeiro – Foto: SECOM

A chegada de Lucas ao poder estadual foi marcada, desde o início, pela ideia de continuidade. Durante a preparação para a transição, João Azevêdo afirmou que o vice já participava das decisões administrativas e estava preparado para assumir o Executivo. Na cerimônia de posse, Lucas adotou o mesmo discurso e apresentou sua chegada como a abertura de um novo capítulo de um projeto que já vinha sendo desenvolvido desde 2019. O novo governador afirmou que pretendia manter as políticas e investimentos em andamento, mas também acelerar as transformações e imprimir novos avanços à administração. A relação entre os dois também foi simbolizada no próprio ato de transmissão do cargo, quando Azevêdo entregou a faixa de governador ao seu sucessor.

2. As primeiras marcas do novo governo

Uma das primeiras medidas anunciadas por Lucas Ribeiro deu uma dimensão própria ao início de sua gestão. Logo após tomar posse, ele anunciou que parte da Granja Santana, espaço utilizado pelo governador, seria transformada no primeiro Parque Sensorial Estadual destinado a pessoas com Transtorno do Espectro Autista. A iniciativa foi apresentada como uma das primeiras ações do novo governo e se somou à agenda de inclusão que Lucas passou a destacar em seus discursos. Ao mesmo tempo, o governador assumiu uma máquina pública que já possuía uma extensa carteira de obras e programas herdados da administração anterior, entre eles investimentos em infraestrutura, saúde, educação, segurança hídrica e desenvolvimento regional. Assim, os primeiros meses de Lucas foram marcados pela combinação entre inauguração de ações já planejadas e apresentação de novas iniciativas.

Entre os desafios encontrados pelo novo governador estava justamente a necessidade de manter o ritmo de investimentos de um Estado que vinha executando grandes obras de infraestrutura. Durante entrevistas, Lucas citou empreendimentos como o Arco Metropolitano, o Centro de Convenções de Campina Grande e o Canal Acauã-Araçagi. Segundo o governador, o Arco Metropolitano estava com aproximadamente 80% de execução, enquanto o Centro de Convenções já funcionava, restando a conclusão do teatro. Sobre o Canal Acauã-Araçagi, afirmou que a terceira etapa estava em execução e que os dois primeiros lotes já haviam sido concluídos, com fornecimento de água para comunidades rurais e assentamentos.

3. Obras, interiorização e continuidade administrativa

A segurança hídrica passou a ocupar espaço importante no discurso do governo. Em setembro, Lucas destacou investimentos realizados a partir das águas da transposição do Rio São Francisco, além de ações voltadas para ramais de distribuição, abastecimento do Cariri e do Curimataú e apoio à agricultura familiar. O governador também afirmou que sua administração havia criado um comitê gestor para planejar medidas diante dos efeitos do El Niño e dos períodos de estiagem. Na área econômica e de infraestrutura, Lucas também havia participado, ainda como governador em exercício, da autorização de obras superiores a R$ 49 milhões nos distritos industriais de Campina Grande e Queimadas, com intervenções previstas em quase 20 quilômetros de vias, drenagem e infraestrutura produtiva.

Lucas Ribeiro em visita às obras distrito industrial de Campina Grande. – Foto: SECOM

O novo governo, entretanto, nasceu em um ambiente político diferente daquele enfrentado por seus antecessores. Lucas assumiu a Paraíba no mesmo ano em que João Azevêdo deixou o cargo para disputar o Senado e em que o próprio Lucas passou a disputar a permanência no Governo do Estado nas eleições de outubro. A sucessão também alterou a composição política do Executivo estadual, já que a saída de João encerrou um ciclo de sete anos à frente da administração paraibana e transferiu para o antigo vice a responsabilidade de conduzir o Estado durante o ano eleitoral. A situação guarda uma semelhança histórica com 2002, quando Maranhão deixou o governo para disputar o Senado e Roberto Paulino assumiu, embora os contextos políticos sejam diferentes.

A relação com os municípios também passou a fazer parte da agenda de Lucas. Em João Pessoa, por exemplo, o governador assumiu o compromisso de manter uma relação administrativa com o prefeito Leo Bezerra, que também chegou ao cargo em abril após a saída de Cícero Lucena para disputar o Governo do Estado. Lucas afirmou que eventuais diferenças políticas não deveriam impedir a execução de investimentos na Capital e citou obras e equipamentos já entregues, como viadutos, o Polo Turístico Cabo Branco e o Hospital da Mulher. A declaração simbolizou um dos desafios da nova etapa: administrar o Estado em meio a uma reorganização política que envolveu simultaneamente Governo, Prefeitura de João Pessoa e disputa eleitoral.

4. Um governo ainda em construção

Ainda é cedo para falar em um legado definitivo de Lucas Ribeiro. Ao contrário dos governadores que passaram quatro ou oito anos no comando da Paraíba e puderam ser avaliados por ciclos completos de governo, Lucas chegou ao cargo em abril de 2026 e, poucos meses depois, já estava inserido no processo eleitoral daquele mesmo ano. Seu período inicial, portanto, é marcado sobretudo pela sucessão de João Azevêdo, pela continuidade de obras e políticas públicas e pela tentativa de acrescentar novas prioridades à administração. O que ficará como marca própria de seu governo dependerá da evolução dos próximos anos e, consequentemente, não pode ser definido apenas pelos primeiros meses de gestão.

Lucas Ribeiro encerra, assim, a linha cronológica de Memória do Poder em um ponto de transição. Desde Tarcísio Burity, eleito em 1986 no primeiro ciclo de eleições diretas para o Governo da Paraíba após a redemocratização, passaram pelo Palácio da Redenção governos marcados por obras, crises políticas, rupturas, disputas eleitorais, mudanças econômicas e diferentes projetos de Estado. A chegada de Lucas representa, até aqui, mais uma dessas mudanças: um vice que recebeu o comando do Executivo de seu antecessor e passou a conduzir a Paraíba em um ano decisivo da política estadual. O próximo capítulo dessa história, diferentemente dos anteriores, ainda está sendo escrito.

Série Especial | Memória do Poder
Uma produção documental do Fonte83 sobre os governos que marcaram a política paraibana desde a redemocratização.

Memória do Poder – Capítulo 1: Tarcísio Burity e o retorno da democracia

Memória do Poder – Capítulo 2: Ronaldo Cunha Lima, o poeta que chegou ao governo

Memória do Poder – Capítulo 3: Cícero Lucena e o governo de transição na Paraíba

Memória do Poder – Capítulo 4: Antônio Mariz e o governo interrompido

Memória do Poder – Capítulo 5: José Maranhão e o governo das águas

Memória do Poder – Capítulo 6: Roberto Paulino, o governo de transição e a eleição que quase mudou tudo

Memória do Poder – Capítulo 7: Cássio Cunha Lima e a mudança de ciclo na Paraíba

Memória do Poder – Capítulo 8: A ascensão de Ricardo Coutinho e o primeiro governo do PSB

Memória do Poder – Capítulo 9: João Azevêdo entre a ruptura com Ricardo, a pandemia e os grandes investimentos

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