A chegada de João Azevêdo ao Governo da Paraíba, em 2019, marcou a continuidade de um projeto político, mas também deu início à construção de uma trajetória própria no comando do Estado. Escolhido por Ricardo Coutinho para representar o grupo do PSB nas eleições de 2018, o engenheiro, até então conhecido principalmente por sua atuação técnica na administração pública, venceu a disputa no primeiro turno com 58,19% dos votos válidos. O que parecia inicialmente uma sucessão natural, porém, seria transformado por uma ruptura política com Ricardo, pela Operação Calvário e pela maior crise sanitária do século. No nono episódio da série documental “Memória do Poder”, o Fonte83 revisita os dois governos de João Azevêdo, entre 2019 e 2026, período marcado por mudanças políticas, pandemia, expansão da infraestrutura, investimentos em saúde, educação e segurança e pela consolidação de uma nova base política no Estado.
1. Do braço direito de Ricardo ao Palácio da Redenção
João Azevêdo chegou à eleição de 2018 como o candidato escolhido pelo então governador Ricardo Coutinho para sucedê-lo. Engenheiro civil formado pela Universidade Federal da Paraíba e professor aposentado do IFPB, João havia ocupado cargos técnicos e políticos na Prefeitura de João Pessoa e no Governo do Estado. Foi secretário de Infraestrutura durante a administração de Ricardo e ganhou notoriedade justamente pela condução de projetos de obras e investimentos. Apesar da experiência administrativa, o próprio João reconheceria posteriormente que um dos principais desafios da campanha foi tornar seu nome conhecido pela população paraibana.
A campanha percorreu os 223 municípios paraibanos e apresentou João como o candidato da continuidade do projeto iniciado em 2011. A estratégia funcionou nas urnas. Em 7 de outubro de 2018, ele foi eleito no primeiro turno com 58,19% dos votos válidos, derrotando Lucélio Cartaxo, que terminou com 23,37%, além dos demais concorrentes. João tomou posse em 1º de janeiro de 2019, com Lígia Feliciano como vice-governadora, e assumiu um Estado que vinha de oito anos de administração do PSB.

João após votar nas eleições de 2014 – Foto: Hebert Araújo
A transição, entretanto, seria muito mais turbulenta do que a campanha poderia indicar. Antes mesmo da posse, a Operação Calvário havia colocado sob investigação contratos envolvendo organizações sociais responsáveis pela administração de unidades de saúde do Estado. Já no início de 2019, João determinou mudanças na gestão desses hospitais e iniciou o processo de retirada das organizações sociais da rede estadual. Segundo o próprio governador, a administração precisou concentrar boa parte dos primeiros meses na reorganização do sistema de saúde, culminando posteriormente na criação da Fundação Paraibana de Gestão em Saúde, a PB Saúde.
O episódio também alterou a relação entre João e Ricardo Coutinho. A crise envolvendo as organizações sociais se transformou em uma disputa política dentro do grupo que havia chegado ao poder em 2011. João deixou o PSB em dezembro de 2019 e, no início de 2020, anunciou sua filiação ao Cidadania. A saída rompeu politicamente o governador com seu antecessor e abriu espaço para que João passasse a construir uma estrutura própria de apoio, separada da liderança de Ricardo.
2. A pandemia e a reconstrução da máquina pública
Quando João Azevêdo começou a consolidar sua administração, a Paraíba foi atingida pela pandemia de Covid-19. Em março de 2020, o governo suspendeu aulas presenciais, restringiu eventos, adotou medidas de isolamento e estabeleceu protocolos para tentar reduzir a circulação do vírus. Em maio daquele ano, o Estado ampliou as medidas de isolamento para todos os municípios paraibanos, inclusive aqueles que ainda não tinham registrado casos confirmados.

João Azevêdo durante coletiva em meio a pandemia da covid-19
A pandemia transformou completamente a agenda do governo. A rede estadual de saúde precisou ser ampliada, com novos leitos e estruturas para atendimento de pacientes com Covid-19. Ao mesmo tempo, o Executivo adotou medidas econômicas para reduzir os impactos sobre empresas, trabalhadores e pequenos empreendedores. Em abril de 2020, por exemplo, foram anunciadas 17 medidas econômicas e tributárias com impacto estimado de R$ 145,5 milhões, além de uma linha especial do Empreender Paraíba destinada a microempreendedores.
O governo também precisou administrar os efeitos da pandemia sobre a educação. As aulas presenciais foram suspensas e a rede estadual passou a utilizar o ensino remoto durante parte do período. Em 2021, diante da continuidade da crise sanitária, João manteve medidas restritivas e articulou com municípios a ampliação de leitos hospitalares e ações para conter novas ondas de transmissão.
Ao mesmo tempo em que enfrentava a crise sanitária, o governo procurava reorganizar a administração estadual e retomar sua agenda de investimentos. A criação da PB Saúde, a reorganização da rede hospitalar e a continuidade de projetos de infraestrutura passaram a representar uma tentativa de reconstrução da capacidade de atuação do Estado depois do choque provocado pela pandemia e pelas mudanças na gestão da saúde. O primeiro mandato chegava à reta final com João já distante politicamente de Ricardo e consolidado como principal liderança do grupo que havia permanecido no poder desde 2011.
3. A reeleição e a transformação do grupo político
A eleição de 2022 representou o primeiro grande teste eleitoral de João Azevêdo sem Ricardo Coutinho ao seu lado. Depois da ruptura entre os dois, o governador precisava demonstrar que sua força política não dependia apenas da estrutura construída pelo ex-governador. A disputa também colocou novamente em evidência a família Cunha Lima, com Pedro Cunha Lima, do PSDB, como principal adversário no segundo turno.

João Azevêdo e Pedro Cunha Lima durante debate na Rede Paraíba
No primeiro turno, João terminou na liderança com 39,65% dos votos válidos, enquanto Pedro Cunha Lima obteve 23,90%. Os dois avançaram para a segunda etapa da disputa. No segundo turno, realizado em 30 de outubro, João foi reeleito com 52,33% dos votos válidos, contra 47,67% de Pedro. O resultado garantiu ao governador mais quatro anos no Palácio da Redenção e confirmou sua capacidade de formar uma coalizão política própria.
A reeleição também consolidou uma mudança na composição do grupo político que comandava o Estado. João deixou de ser apenas o sucessor de Ricardo Coutinho e passou a liderar uma ampla aliança que reunia diferentes partidos e lideranças municipais. Para o segundo mandato, seu vice passou a ser Lucas Ribeiro, então filiado ao Progressistas e integrante de uma nova geração política paraibana.
Com a vitória, o governo entrou em uma nova fase. Se os primeiros quatro anos haviam sido dominados pela ruptura política, pela crise da saúde e pela pandemia, o segundo mandato começou com a promessa de ampliar investimentos e acelerar projetos estruturantes. O Executivo passou a anunciar grandes pacotes de obras envolvendo mobilidade, segurança hídrica, saúde, educação, turismo e infraestrutura urbana.
4. Grandes obras e o novo ciclo de investimentos
Entre as principais marcas do segundo mandato está a ampliação do volume de investimentos públicos. Em janeiro de 2025, o Governo da Paraíba lançou o programa “Paraíba 2025-2026”, com previsão de mais de R$ 11,5 bilhões em obras e ações. O pacote incluiu projetos como o BRS de João Pessoa, novos hospitais, obras de abastecimento de água, infraestrutura rodoviária e equipamentos voltados para desenvolvimento econômico.
Na mobilidade, uma das obras de maior dimensão é a chamada Ponte do Futuro, complexo rodoviário destinado a interligar Cabedelo, Santa Rita e Lucena. O projeto envolve uma nova ponte sobre o Rio Paraíba e acessos rodoviários, com investimento informado pelo governo de R$ 465,5 milhões em recursos próprios. A obra passou a integrar a estratégia de melhorar a mobilidade da Região Metropolitana de João Pessoa e estimular atividades turísticas e econômicas no Litoral Norte.

João no evento de anúncio do projeto Paraíba 25/26 – Foto: Governo da Paraíba
Outro projeto que atravessou diferentes administrações e ganhou nova dimensão durante o governo João foi o Polo Turístico Cabo Branco. Idealizado décadas antes, o complexo avançou para a fase de implantação de empreendimentos privados. Em 2025, o governo informava investimentos privados estimados em R$ 2,7 bilhões e previsão de 14 mil leitos de hotelaria. A iniciativa passou a ser apresentada como uma das principais apostas para ampliar o turismo e a capacidade de geração de empregos no Estado.
A segurança hídrica também permaneceu como uma das prioridades. O governo avançou em adutoras, barragens e sistemas de abastecimento, incluindo a Adutora do Cariri, anunciada com investimento de aproximadamente R$ 432 milhões. O conjunto de obras procurou enfrentar um dos problemas históricos da Paraíba: a irregularidade das chuvas e a dependência de sistemas de abastecimento vulneráveis às estiagens.
5. Saúde, educação, segurança e o legado de João Azevêdo
No segundo mandato, a saúde continuou recebendo investimentos com a ampliação da rede estadual. Entre os projetos entregues está o Hospital da Mulher de João Pessoa, que recebeu investimento de R$ 144,7 milhões e começou a funcionar com atendimento especializado à saúde feminina. O governo também ampliou a oferta de serviços de média e alta complexidade no interior e criou programas específicos, como o Coração Paraibano e o Paraíba Contra o Câncer. Segundo balanço oficial de 2025, o Coração Paraibano havia realizado milhares de atendimentos desde sua implantação.
Na educação, a administração avançou na expansão das escolas de tempo integral e em políticas de formação profissional. Na segurança pública, o governo investiu em equipamentos, tecnologia e estruturas integradas de comando e controle. Em balanço divulgado no início de 2026, a administração informou que a Paraíba havia alcançado 63% de elucidação de crimes violentos letais intencionais em 2025 e registrado redução de 4,2% nesse tipo de crime. Esses números são dados apresentados pelo próprio governo e devem ser lidos como balanço oficial da gestão.
A política habitacional também ganhou espaço nos últimos anos. Em outubro de 2025, o governo anunciou a construção de mais 10.256 unidades habitacionais e informou que, desde 2019, havia 22.495 residências concluídas, em andamento ou previstas, somando aproximadamente R$ 2,8 bilhões em investimentos. A habitação passou a integrar uma agenda mais ampla de investimentos sociais, ao lado de programas de segurança alimentar, agricultura familiar e desenvolvimento humano.
Ao longo de dois mandatos, João Azevêdo passou de um nome inicialmente pouco conhecido e escolhido para suceder Ricardo Coutinho a uma liderança com estrutura política própria e capacidade de disputar e vencer uma reeleição. Seu governo atravessou uma ruptura política com o antecessor, a Operação Calvário, uma pandemia que alterou a administração pública e a economia, além de um período posterior de expansão dos investimentos em infraestrutura. Em 2026, já no último ano do segundo mandato, sua gestão segue marcada pela execução de grandes projetos, como a Ponte do Futuro, o Polo Turístico Cabo Branco, obras hídricas e novos equipamentos de saúde e educação. O ciclo iniciado em 2019, portanto, consolidou uma nova etapa na política paraibana, na qual João Azevêdo deixou de ser apenas o sucessor de um projeto político para se tornar o principal responsável por sua própria trajetória no comando do Estado.
Série Especial | Memória do Poder
Uma produção documental do Fonte83 sobre os governos que marcaram a política paraibana desde a redemocratização.
Memória do Poder – Capítulo 1: Tarcísio Burity e o retorno da democracia
Memória do Poder – Capítulo 2: Ronaldo Cunha Lima, o poeta que chegou ao governo
Memória do Poder – Capítulo 3: Cícero Lucena e o governo de transição na Paraíba
Memória do Poder – Capítulo 4: Antônio Mariz e o governo interrompido
Memória do Poder – Capítulo 5: José Maranhão e o governo das águas
Memória do Poder – Capítulo 7: Cássio Cunha Lima e a mudança de ciclo na Paraíba





