Promotora de Justiça, Artemise Leal, durante entrevista ao programa Ô Paraíba Boa - Foto: Dayana Lucas.

A promotora de Justiça Artemise Leal, titular do 1º Tribunal do Júri de João Pessoa, fez um relato contundente sobre o preconceito que enfrenta na carreira e os tabus que ainda cercam a presença de mulheres em espaços de poder. A declaração foi dada nesta sexta-feira (12), durante entrevista ao programa Ô Paraíba Boa, da Rádio 100.5 FM.

Artemise afirmou que já vivenciou situações de desrespeito tanto dentro quanto fora das instituições e destacou que parte das dificuldades vem justamente de ambientes que deveriam acolher mulheres. “Às vezes você não é acolhida nem por quem defende tantas bandeiras. O mínimo deveria ser acolher, entender, respeitar”, disse.

Ela relatou episódios em que, mesmo convidada para palestrar, foi colocada em segundo plano. “Já aconteceu de eu chegar para uma palestra marcada e colocarem dois homens para falar antes. Disseram: ‘Se sobrar tempo, ela fala’ ‘Venha amanhã palestrar’. Eu não aceitei. Respeito é básico”, contou.

Ambiente masculino e resistência

Artemise também comentou sobre o peso diário da rotina profissional, especialmente atuando no Tribunal do Júri, espaço que ela define como “totalmente masculino”. “Tem filhos, casa, demandas… e você chega para atuar em um ambiente duro, onde tudo é cobrança. É uma promotoria espinhosa”, disse.

Segundo ela, ser firme cobra um preço: “O tempo todo tentam nos descredibilizar. Não é fácil ser mulher no sistema de Justiça”, relatou.

A promotora citou ainda que já enfrentou comentários depreciativos após atuações marcantes em plenário. Ao lembrar do júri do caso do taxista Paulo, relatou que uma pessoa chegou a insinuar que o desempenho não parecia ser de uma mulher. “Disseram: ‘Pela forma como a senhora fala, só pode ter sido porque a senhora não tem marido’. É absurdo, mas acontece”, argumentou.

Caso Mariana Thomaz

Artemise ganhou destaque ao participar processos de grande repercussão, como o da estudante de medicina Mariana Thomaz, encontrada morta em março de 2022 em um apartamento no Cabo Branco, em João Pessoa. O caso levou à prisão do acusado Johannes Dudeck, que alegou relação afetiva com a vítima. A perícia apontou sinais de estrangulamento.

Feminismo e permanência na carreira

Apesar da trajetória marcada por confrontos e resistência, Artemise disse que, por vezes, pensa em buscar uma promotoria “mais tranquila”, mas segue firme por acreditar na importância da representação feminina. “Pergunto a mim mesma por que continuo. Mas é isso: mulheres fortes ainda incomodam, e é justamente por isso que precisamos estar aqui”, afirmou.

Assista na íntegra a entrevista de Artemise Leal ao programa Ô Paraíba Boa:

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