A gente procura fazer uma análise dos acontecimentos da sociedade e, neste momento, um episódio envolvendo a dupla sertaneja Jorge e Mateus merece uma reflexão. Quem acompanha as redes sociais percebe o movimento de boicote aos artistas. Shows da dupla foram cancelados em Recife e Fortaleza, enquanto manifestações semelhantes começaram a ganhar força também em Salvador.
A justificativa apresentada por alguns grupos é de que Jorge teria feito declarações contra o Nordeste, acusação que o próprio cantor desmentiu. O que se observa, porém, é uma tentativa de perseguir artistas por suas posições políticas. E fica a pergunta: não foi justamente esse tipo de comportamento que tanto criticamos quando partia de pessoas alinhadas ao bolsonarismo? Desde quando devemos avaliar a obra de um artista com base em sua posição política?
Na eleição passada, Mateus, que forma a dupla com Jorge, também foi alvo de fortes ataques depois de declarar seu posicionamento contrário a Bolsonaro, ao dizer “Ele não”. Na época, setores da direita reagiram de forma agressiva, e muitas pessoas consideraram aquele comportamento um absurdo. Agora, nós, enquanto sociedade, principalmente no Nordeste, estamos reproduzindo uma espécie de fascismo cultural: perseguir pessoas que têm opiniões políticas diferentes das nossas.
É importante lembrar que existem artistas cujas músicas carregam posicionamentos políticos, mensagens sociais e ideológicas, como Caetano Veloso, Chico Buarque e Gilberto Gil, nomes que são referências da nossa Música Popular Brasileira e que, inclusive, estão entre meus ídolos. Mas a música sertaneja, no caso de Jorge e Mateus, aborda principalmente temas como amor, traição, festas e bebedeira. A dupla não tem uma produção musical marcada por mensagens que defendam determinado lado político ou indiquem em quem as pessoas devem votar.
Precisamos parar com essa hipocrisia de apontar os erros dos outros, chamar pessoas de fascistas por serem de direita ou extrema direita e, ao mesmo tempo, praticar o mesmo comportamento quando a situação envolve artistas com opiniões diferentes das nossas. Minha gente, não devemos avaliar uma festa pela posição política particular de quem vai se apresentar. O artista tem todo o direito de pensar diferente, assim como nós também temos o direito de expressar nossas opiniões.
O que está acontecendo com Jorge e Mateus e com outros artistas é uma demonstração de intolerância cultural. Sabemos que uma parcela expressiva do segmento sertanejo apoiou Bolsonaro. Isso é conhecido. Mas será que alguém vai deixar de gostar das músicas de um artista simplesmente porque ele tem uma opinião política diferente? Então, quem é bolsonarista não pode ouvir MPB? E quem é lulista, petista ou progressista não pode escutar música sertaneja?
Que imbecilidade é essa? Que burrice é essa? Que fascismo é esse? Acho que vale a pena refletirmos sobre o que está acontecendo para que não cometamos justamente os mesmos erros que tanto apontamos nos outros.




