Na política brasileira, há temas que provocam reações intensas, e o que vou dizer agora pode desagradar a muitos bolsonaristas: se Flávio Bolsonaro é perseguido por Alexandre de Moraes, Lula também foi perseguido por Sérgio Moro e não fugiu do Brasil.
O problema do bolsonarismo não é ser de direita. É transformar contradições morais, desprezo pela democracia, ataques à ciência e questionamentos às instituições em demonstrações de fidelidade política. A possível saída de Flávio Bolsonaro do Brasil, após a derrota eleitoral, precisa ser analisada para além do episódio em si. É necessário observar o contexto político e a forma como parte de sua militância reage às controvérsias envolvendo seus líderes.
O que chama a atenção é a disposição de alguns apoiadores de justificar qualquer comportamento de seus representantes. Quando surgem acusações ou questionamentos judiciais, a responsabilidade frequentemente é atribuída à imprensa, à Justiça ou aos adversários políticos. A crítica deixa de ser avaliada pelo seu conteúdo e passa a ser rejeitada por causa de quem a apresenta.
É preciso recordar episódios anteriores. Quando ainda era deputado estadual no Rio de Janeiro, Flávio Bolsonaro foi investigado no caso conhecido como “rachadinhas”, relacionado à suspeita de devolução de parte dos salários de assessores parlamentares. O senador negou irregularidades, e decisões judiciais anularam provas e atos da investigação. Esses fatos precisam ser apresentados com precisão, sem transformar suspeitas em condenações.
Em abril de 2020, durante uma reunião ministerial, Jair Bolsonaro fez declarações sobre a necessidade de proteger familiares e pessoas próximas. Dois dias depois, Sérgio Moro deixou o Ministério da Justiça e acusou o então presidente de tentar interferir na Polícia Federal. Bolsonaro negou as acusações. Anos depois, Moro voltou a se aproximar politicamente de setores do grupo que havia criticado. Essa trajetória levanta uma questão sobre a consistência dos princípios quando os interesses políticos mudam.
O bolsonarismo costuma se apresentar como defensor de Deus, da pátria, da família e da liberdade. Mas que compromisso com esses valores existe quando parte dos apoiadores relativiza comportamentos de aliados que seriam condenados se partissem de adversários? Que patriotismo é esse quando disputas políticas se sobrepõem ao interesse nacional? E que defesa da liberdade é essa quando há setores que questionam os resultados eleitorais e defendem medidas contrárias à ordem democrática?
Não estou dizendo que todo eleitor de direita compartilha dessas contradições. Ser conservador, liberal ou contrário ao PT é uma posição política legítima. A democracia pressupõe a convivência entre diferentes projetos de sociedade. O problema começa quando o antipetismo deixa de ser uma preferência eleitoral e passa a funcionar como justificativa para aceitar qualquer atitude de uma liderança política.
A pandemia de Covid-19 expôs parte dessas contradições. Enquanto famílias enfrentavam perdas e hospitais lidavam com a crise sanitária, declarações de Jair Bolsonaro sobre a gravidade da doença provocaram indignação. A frase “E daí? Eu não sou coveiro” tornou-se um dos símbolos da reação pública à postura do então presidente diante das mortes provocadas pela pandemia.
Depois das eleições de 2022, manifestações em frente a quartéis e atos contra o resultado das urnas também evidenciaram a disposição de setores da militância de contestar o processo democrático. Mais do que as cenas que provocaram perplexidade, o que merece reflexão é a capacidade de uma convicção política se sobrepor aos fatos e ao pensamento crítico.
O problema, portanto, vai além de Flávio Bolsonaro ou de qualquer outro integrante da família. Uma democracia não se enfraquece apenas quando governantes desrespeitam limites institucionais. Ela também perde força quando cidadãos passam a considerar esses limites dispensáveis para seus próprios líderes.
Não se trata de uma disputa entre direita e esquerda, mas de uma discussão sobre responsabilidade, coerência e respeito às regras democráticas. Nenhum político merece devoção incondicional. Nenhuma família deve receber privilégios diante da lei, e nenhuma ideologia pode servir de justificativa para a mentira, a crueldade ou o abuso de poder.
Por incrível que possa parecer aos ouvidos dos mais doutrinados, eu não sou petista. Admiro pessoas, mas não idolatro políticos. O Brasil não precisa de uma sociedade em que todos pensem da mesma maneira. Precisa de cidadãos capazes de questionar seus próprios representantes, reconhecer erros e cobrar responsabilidade de quem exerce o poder.
O verdadeiro perigo começa quando a consciência crítica é substituída pela fidelidade incondicional a um líder. Quando isso acontece, a política deixa de ser um espaço de debate democrático e passa a ser um ambiente em que qualquer atitude pode ser justificada, desde que venha de quem se escolheu defender.


