Jesus Cristo dedicou grande parte de seu ministério aos pobres, aos doentes, aos excluídos e àqueles que a sociedade preferia ignorar. Tocou leprosos, acolheu marginalizados, alimentou famintos e ensinou que o tratamento dispensado aos mais vulneráveis revelava a verdadeira dimensão da fé.

Em Mateus 25:40, Jesus identifica o cuidado prestado aos mais necessitados como um serviço prestado a ele próprio. Em Lucas 10:25–37, a parábola do bom samaritano apresenta a misericórdia como uma obrigação que ultrapassa fronteiras religiosas e sociais.

O contraste entre esses ensinamentos e determinadas manifestações do bolsonarismo merece uma análise que não pode ser resolvida apenas com slogans religiosos.

O sofrimento na pandemia e o exemplo de Cristo

Em março de 2021, quando o Brasil enfrentava um dos períodos mais graves da pandemia de Covid-19, Jair Bolsonaro imitou uma pessoa com dificuldade para respirar durante uma transmissão ao vivo, ao criticar orientações do ex-ministro da Saúde Luiz Henrique Mandetta.

O gesto provocou críticas pela insensibilidade diante do sofrimento de pacientes que lutavam para respirar.

Naquele período, milhares de famílias enfrentavam internações, perdas e a impossibilidade de se despedir de seus parentes. No dia da live, o Brasil registrou mais 2.600 mortes pelo Covid-19.

O contraste com os Evangelhos é evidente. Em Mateus 14:14, Jesus demonstra compaixão pela multidão e cura seus enfermos. Em João 11:35, diante da morte de Lázaro e da dor daqueles que o amavam, Jesus chora.

O sofrimento alheio não é tratado como fraqueza ou motivo de escárnio.

Bolsonaro também minimizou a gravidade da pandemia em diferentes declarações. Ao ser questionado sobre as mortes, utilizou expressões como “E daí?” e “Eu não sou coveiro”, manifestações amplamente registradas pela imprensa. Promoveu moticiatas pelo país gerando grandes aglomerações e tudo pago com dinheiro público.

A questão ética ultrapassa a disputa partidária: como conciliar uma postura pública percebida como indiferente à dor de tantas famílias com a centralidade da compaixão na mensagem cristã?

A vacinação e a responsabilidade com a vida

A defesa da vida também exige responsabilidade com informações que podem afetar a saúde coletiva.

Durante a pandemia, Bolsonaro questionou a eficácia e a segurança das vacinas contra a Covid-19 e utilizou a possibilidade fantasiosa de alguém virar jacaré como exemplo ao falar sobre efeitos adversos. Em entrevista ao Jornal Nacional, em 2022, afirmou que se tratava de uma figura de linguagem. Chegou a associar vacinação com o virus HIV.

O então presidente também defendeu medicamentos sem eficácia demonstrada contra a doença e fez afirmações incorretas sobre medidas de prevenção, conforme verificações jornalísticas da época.

Questionar políticas públicas é um direito democrático. Entretanto, quando declarações de autoridades colocam em dúvida medidas de proteção respaldadas por evidências científicas, seus efeitos potenciais sobre a população merecem escrutínio rigoroso.

O Evangelho não oferece um manual de epidemiologia, mas estabelece a responsabilidade de cuidar do próximo. Em Filipenses 2:4, Paulo orienta os cristãos a considerar também os interesses dos outros.

Esse princípio convida à reflexão sobre o dever de governantes e cidadãos de proteger pessoas especialmente vulneráveis às doenças.

A exaltação da tortura e o mandamento do amor

Outra contradição está na defesa ou glorificação de práticas violentas.

Em 2016, Jair Bolsonaro homenageou o coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra durante a votação do impeachment de Dilma Rousseff. Ustra foi reconhecido judicialmente como torturador durante a ditadura militar.

A homenagem se tornou um dos episódios mais conhecidos de sua trajetória política.

Em Mateus 5:9, Jesus chama os pacificadores de bem-aventurados. Em Mateus 5:44, ensina o amor aos inimigos.

Esses ensinamentos não eliminam discussões legítimas sobre segurança pública, punição de crimes ou defesa pessoal. Mas estabelecem um desafio moral à exaltação da tortura e à celebração do sofrimento de adversários.

Quando a fidelidade ao líder substitui o julgamento moral

O problema mais profundo surge quando seguidores deixam de avaliar os atos de uma liderança pelos princípios que afirmam defender.

Uma declaração que seria considerada ofensiva se partisse de um adversário passa a ser relativizada quando vem de alguém do próprio grupo. A exigência de responsabilidade moral torna-se seletiva.

Em Mateus 7:16, Jesus ensina que as pessoas devem ser reconhecidas por seus frutos. A passagem aponta para a importância das atitudes concretas, e não apenas das palavras ou da identidade religiosa declarada.

Já em Jeremias 17:5, há uma advertência contra depositar confiança absoluta no ser humano.

Nenhuma dessas passagens impede a participação política de cristãos. Ambas, porém, oferecem fundamentos para questionar a transformação de líderes em figuras imunes à crítica.

A fé não deve servir para absolver aliados

O cristianismo não exige fidelidade a partidos, presidentes ou movimentos políticos.

Um cristão pode defender ideias conservadoras, apoiar propostas liberais ou votar em candidatos de direita. Da mesma forma, pode se identificar com posições de esquerda ou de centro. Nenhuma dessas escolhas, isoladamente, determina a autenticidade de sua fé.

A contradição aparece quando a defesa de uma liderança exige abandonar princípios que deveriam valer para todos.

Se a tortura é condenável, não pode ser celebrada quando praticada contra um adversário. Se a corrupção é errada, não pode ser relativizada porque envolve um aliado. Se a vida humana merece proteção, o sofrimento de pessoas com posições políticas diferentes não pode ser tratado com desprezo.

Em Tiago 2:1–9, a parcialidade é apresentada como incompatível com a fé. O ensinamento reforça a necessidade de aplicar critérios morais sem favorecer pessoas por sua posição social ou identidade.

O desafio colocado aos cristãos não é abandonar a política, mas impedir que a política se torne mais importante que a própria consciência.

O Evangelho pode orientar escolhas políticas. O que ele não autoriza é transformar a lealdade a um homem em justificativa para a crueldade, a mentira ou a indiferença ao sofrimento humano.

Antes de perguntar a qual partido Jesus pertenceria, talvez seja mais importante perguntar se nossas atitudes diante dos pobres, dos doentes, dos adversários e dos vulneráveis se aproximam daquilo que ele ensinou.