Na política, há gestores que entregam legado.
E há gestores que deixam rescaldo.
Em Bayeux, quando Tarcyana Leitão assumiu a prefeitura, não encontrou uma máquina pronta para avançar. Encontrou uma cidade ferida, contas pressionadas, contratos atravessados e um passado administrativo pesado demais para ser ignorado — pesado, sobretudo, porque tem nome, sobrenome e assinatura.
O famoso ditado do limão nunca foi tão literal.
Tarcyana não teve opção de escolher entre governar ou consertar. Precisou fazer as duas coisas ao mesmo tempo. Governar olhando para frente e, simultaneamente, limpar os escombros deixados para trás pela gestão de Luciene Gomes, a Fofinho.
E não se trata de opinião, disputa de versões ou narrativa política. Trata-se de documento.
O parecer do Ministério Público de Contas é cristalino: recomendação de reprovação das contas da ex-gestora, cobrança de devolução superior a R$ 20 milhões, pedido de impedimento para ocupar cargos de confiança e encaminhamento à Receita Federal e ao Ministério Público por indícios de irregularidades.
Não é ataque.
Não é intriga.
É consequência.
Enquanto parte do grupo ligado à ex-prefeita tenta empacotar esse cenário como “perseguição”, Tarcyana faz o que governantes responsáveis fazem: arregaça as mangas e trabalha.
Mesmo enfrentando sucessivos sequestros de recursos, herdando uma prefeitura com fôlego curto e margem mínima, a gestão atual escolheu um caminho raro na política: o da reconstrução silenciosa.
Sem pirotecnia.
Sem maquiagem.
Sem marketing vazio.
A cidade voltou a ter cuidado urbano. Ruas limpas, equipamentos públicos reativados, serviços básicos funcionando. Servidores passaram a receber salários em dia — algo que por muito tempo foi exceção e agora começa a virar regra. E quando salário entra na conta, o comércio respira, a feira enche, o pequeno negócio gira. A economia local sente.
No campo da saúde, um símbolo forte: em 15 de dezembro de 2025, foi reinaugurado o Hospital Materno Infantil João Marsicano, fechado desde outubro de 2024 por interdição sanitária. Onde havia portas fechadas, hoje há atendimento. Onde havia abandono, hoje há serviço.
Projetos sociais foram retomados, a prefeitura voltou a receber a população de portas abertas e a sensação dominante deixou de ser a de abandono absoluto para dar lugar a algo essencial: esperança cautelosa.
Nada disso apaga os problemas. Mas revela algo maior: existe comando.
Tarcyana governa sem colchão financeiro, sem herança positiva, sem bônus político. Governa praticamente no modo sobrevivência — e, ainda assim, entrega.
Enquanto isso, a ex-prefeita, responsável direta pelo cenário que hoje estrangula a cidade, já se movimenta politicamente, sonhando com retorno ao poder. A política brasileira tem dessas ironias cruéis: quem cria o problema muitas vezes se sente à vontade para posar de solução.
Bayeux vive um paradoxo.
Uma prefeita ocupada em consertar o passado.
E um passado tentando voltar para governar o futuro.
No meio desse choque, a cidade começa a entender quem está trabalhando e quem apenas quer voltar.
Tarcyana não governa com conforto. Governa com coragem.
E, na política real, isso faz toda a diferença.




