Doutoura Lusiana Ramalho Ribeiro, professora da Pós-Graduação em Direitos Humanos, Cidadania e Políticas Públicas da UFPB - Foto: Reprodução.

A Doutoura Lusiana Ramalho Ribeiro, professora do Programa de Pós-Graduação em Direitos Humanos, Cidadania e Políticas Públicas da Universidade Federal da Paraíba (UFPB), defendeu uma leitura mais ampla sobre o fenômeno do crime organizado no Brasil e questionou a ideia de que as organizações criminosas estejam restritas às facções, ao tráfico de drogas e à violência visível nas ruas. Durante o Senso Crítico, da FGTV e MRTV, apresentado pelo jornalista Klauber Beserra, ela relacionou criminalidade, poder, instituições, desigualdade e formação histórica do país.

“É uma realidade no território nacional. Nós temos visto isso desde os últimos pleitos, no sentido de que se torna público”, afirmou Lusiana. Para a professora, entretanto, compreender o crime organizado exige ultrapassar aquilo que chamou de “ponta do iceberg” e observar também as estruturas que permitem a circulação de poder, influência e recursos.

“É muito fácil para nós, sociedade, para muitos pseudoespecialistas, mapear ou pensar que o crime organizado é esse crime detectável imediatamente. Isso que a gente chama de ponta de iceberg. É esse crime de facção, esse crime de droga”, declarou. Na sequência, ela ampliou o argumento: “Mas o crime organizado hoje, mais do que nunca, está às claras no Congresso Nacional, no STF, no mundo empresarial, no mundo financeiro”, pontuou.

A professora também relacionou a discussão às instituições e à política. “O crime organizado está na política, mas não só na política. Tristemente, o crime organizado tem estado neste país ocupando cargos públicos e ocupando ou pleiteando cargos públicos”, afirmou. Em outro momento da entrevista, Lusiana resumiu sua leitura sobre as relações entre poder e ilegalidade: “A violência é a base do exercício de poder neste país e a ilicitude, em todas as suas formas de corrupção, são as ferramentas com as quais a gente tem operado as práticas de Estado”, ressaltou.

Outro ponto levantado durante a conversa foi a formação histórica das desigualdades brasileiras. “Essa é uma história que tem a ver com a própria invenção do Brasil, da colonização, de um processo de abolição completamente irresponsável e que não repara todo o processo de exploração humana, de expropriação humana”, afirmou. A professora também criticou o uso do termo “comunidade” para designar territórios marcados pela pobreza e pela ausência de equipamentos públicos.

“São favelas, são bolsões de miséria, são bolsões em que basicamente não há nem equipamento social. E eles são entregues ao total desamparo pelas forças do Estado”, declarou. Segundo a análise apresentada no programa, é nesse cenário que determinados grupos políticos podem estabelecer relações de influência e acordos para ocupar ou controlar esses espaços.

Na parte final da entrevista, Lusiana deslocou o debate para educação, cultura e participação social. “Eu não creio em revoluções. Mas eu creio em algo que é fundamental, que é a educação, que é a cultura de um modo geral”, afirmou. Para ela, mudanças estruturais são processos de longo prazo e passam também pela formação de cidadãos capazes de acompanhar a atuação dos representantes eleitos.

“Estamos muito longe do exercício do que seja cidadania, que é votar, comprometer-se, vigiar, fiscalizar aqueles em quem nós votamos”, afirmou. A professora acrescentou que a sociedade frequentemente procura figuras capazes de assumir o papel de “salvador”, em vez de fortalecer mecanismos permanentes de participação e fiscalização.

Assista a entrevista da especialista ao programa Senso Crítico da FGTV e MRTV:

No Senso Crítico da FGTV e MRTV, especialista alerta para avanço do crime organizado na política e instituições

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