Lauremília Lucena e Lígia Feliciano são, até hoje, as únicas mulheres eleitas para o cargo de vice-governadora da Paraíba; o Estado nunca elegeu uma governadora.

As eleições gerais de 2026 recolocam em pauta uma discussão que ainda desafia a democracia brasileira: a participação das mulheres nos cargos eletivos. Neste ano, os brasileiros escolherão presidente da República, governador, dois senadores, deputados federais e deputados estaduais. Apesar de representarem a maioria do eleitorado, as mulheres continuam ocupando uma parcela reduzida dos principais espaços de poder, realidade que também se reflete na Paraíba.

Dados da Justiça Eleitoral mostram que a participação feminina nas urnas supera a masculina no Estado. Segundo o Tribunal Regional Eleitoral da Paraíba (TRE-PB), são 1.718.522 eleitoras aptas a votar, contra 1.529.485 eleitores, consolidando as mulheres como a maioria do eleitorado paraibano. Ainda assim, essa predominância numérica não se converte, na mesma proporção, em representação política.

Em entrevista ao Portal Fonte83, o cientista social, professor da Universidade Federal de Campina Grande (UFCG) e autor do livro A Política como negócio de família: para uma sociologia política das elites e do poder político familiar, José Marciano Monteiro afirma que ampliar a presença feminina nos cargos eletivos é uma condição indispensável para fortalecer a democracia. “A participação das mulheres na política é fundamental para fortalecer a democracia. Elas representam mais da metade da população brasileira e, por isso, precisam estar presentes nos espaços onde são tomadas as decisões que impactam a vida da sociedade. Quanto mais diversa for a representação política, maiores são as possibilidades de construir políticas públicas que dialoguem com as diferentes realidades do país”, explicou.

Segundo o pesquisador, embora o Brasil tenha registrado avanços nas últimas décadas, a desigualdade de gênero ainda permanece como uma das principais marcas da política nacional. “As mulheres continuam enfrentando obstáculos que os homens, em geral, não enfrentam na mesma intensidade. A política foi historicamente construída como um espaço masculino, e isso influencia a forma como os partidos organizam suas candidaturas, distribuem recursos e oferecem apoio político”, argumentou.

Marciano observa que a desigualdade vai além do financiamento eleitoral. Para ele, muitas mulheres acumulam responsabilidades familiares e profissionais, além de enfrentarem preconceito e episódios de violência política de gênero. “Quando discutimos a baixa participação feminina, não estamos falando de falta de capacidade ou de interesse. Estamos falando de barreiras estruturais que ainda precisam ser superadas. É necessário garantir igualdade de condições para disputar eleições, e isso ainda está distante da realidade brasileira”, ressaltou ao Portal Fonte83.

A Paraíba e a presença feminina nos cargos majoritários

O cenário paraibano evidencia esse desafio. Desde a redemocratização, apenas duas mulheres chegaram ao cargo de vice-governadora da Paraíba: Lauremília Lucena, entre 2003 e 2007, tendo sido eleita em 2002 na chapa encabeçada por Cássio Cunha Lima, e Lígia Feliciano, vice-governadora nas gestões iniciadas em 2015 e reeleita em 2018, no primeiro mandato, foi vice de Ricardo Coutinho (PT) e, no segundo, de João Azevêdo (PSB). A Paraíba também nunca elegeu uma mulher para o cargo de governadora. Outro marco histórico na representação feminina ocorreu apenas em 2018, quando Daniella Ribeiro (PP) foi eleita a primeira mulher senadora da história do Estado.

Para José Marciano, esse dado revela o quanto a presença feminina nos cargos majoritários ainda é limitada. “O fato de a Paraíba ter eleito apenas duas mulheres para o cargo de vice-governadora já demonstra como a participação feminina nos cargos majoritários continua restrita”, pontuou durante entrevista ao Portal Fonte83.

Na avaliação do cientista social, a eleição de Lauremília Lucena representou um marco histórico em um período em que a presença feminina em chapas majoritárias era ainda mais rara. “Naquele momento, o debate sobre igualdade de gênero na política era muito menos presente dentro da sociedade e dos próprios partidos. A eleição de Lauremília teve um enorme valor simbólico ao mostrar que as mulheres também poderiam ocupar posições estratégicas no Executivo”, afirmou.

Já a eleição de Lígia Feliciano ocorreu em um contexto diferente, quando o debate sobre participação feminina ganhou força nacionalmente. “Quando Lígia foi eleita, já existiam mudanças na legislação eleitoral, maior fiscalização das cotas de candidaturas e uma cobrança crescente para que os partidos investissem efetivamente nas candidaturas femininas”, relembrou o professor.

O peso das estruturas políticas

Apesar dos avanços, Marciano faz uma análise sobre a construção das trajetórias políticas das duas vice-governadoras paraibanas. “Não podemos analisar essas duas mulheres sem considerar a força política de seus respectivos esposos. Tanto Lauremília quanto Lígia chegaram ao cargo ancoradas em importantes grupos políticos já consolidados”, destacou ao Portal Fonte83.

Segundo ele, o desafio da política paraibana passa pela construção de lideranças femininas com maior autonomia. “A Paraíba ainda precisa construir uma representação feminina que venha das bases, com mulheres consolidando sua própria trajetória política. Houve avanços importantes, mas ainda é necessário fortalecer uma agenda voltada às políticas públicas para as mulheres e ampliar sua participação nos espaços de decisão”, disse.

As duas mulheres que chegaram à vice-governadoria

A odontóloga Maria Lauremília Assis de Lucena, natural de Sousa, entrou para a história ao tornar-se a primeira mulher eleita vice-governadora da Paraíba. Ela exerceu o cargo entre 2003 e 2006. Antes e depois desse período, também ocupou o papel de primeira-dama da Paraíba e de João Pessoa, participou da direção partidária do PSDB na Capital e manteve atuação nas articulações políticas ligadas ao grupo liderado por Cícero Lucena (MDB). Atualmente, voltou a exercer o posto de primeira-dama de João Pessoa.

Já Ana Lígia Costa Feliciano é médica, empresária e política. Foi vice-governadora da Paraíba entre 2015 e 2022. Antes disso, disputou uma vaga ao Senado Federal em 2002 e foi candidata a vice-prefeita de Campina Grande nas eleições municipais de 2008, na chapa encabeçada pelo saudoso ex-deputado federal Rômulo Gouveia (PSD). Filiada ao PDT durante o período em que ocupou a vice-governadoria, tornou-se a única mulher reeleita para o cargo no Estado.

O desafio das eleições de outubro

Com cinco cargos em disputa nas eleições deste ano, especialistas avaliam que o fortalecimento da participação feminina continuará sendo um dos principais temas do debate democrático. Embora as mulheres sejam maioria entre os eleitores paraibanos, o desafio permanece em transformar essa força nas urnas em maior presença nos parlamentos, nos governos e nos cargos de liderança política.

Como destacou José Marciano Monteiro ao Portal Fonte83, ampliar a representação feminina não significa apenas aumentar números, mas fortalecer a pluralidade das instituições democráticas e garantir que diferentes experiências e perspectivas estejam presentes nas decisões que impactam toda a sociedade.

Em meio à corrida pela vice, Lígia Feliciano faz aceno político e fala em futuro da Paraíba

Lígia Feliciano não descarta disputar vice na chapa de Lucas Ribeiro em 2026 e diz: “Meu nome está à disposição do povo paraibano”

Convenções se aproximam e corrida pelo Governo da Paraíba entra em nova fase; veja quem são os pré-candidatos

Compartilhe esse conteúdo: