Tem uma coisa que alguns políticos ainda não aprenderam em Cajazeiras: cargo se dá, cargo se tira; voto, não. Nos últimos dias, conversei com muita gente. Gente de todas as classes sociais, de diferentes bairros, servidores, contratados, comissionados, comerciantes e pessoas que acompanham a política apenas de longe. E dessas conversas saí com uma impressão muito clara: a estratégia de tentar transformar emprego público em instrumento de controle eleitoral pode produzir exatamente o efeito contrário ao pretendido.

Tenho ouvido relatos de servidores e pessoas ligadas à administração municipal que se sentem pressionados a demonstrar apoio aos candidatos apoiados pela prefeita Corrinha, sobretudo ao deputado Júnior Araújo.

E é aí que mora o perigo para qualquer grupo político que confunda autoridade administrativa com propriedade sobre a consciência das pessoas. Porque uma coisa é mandar colocar adesivo. Outra coisa é mandar no voto. Uma coisa é exigir fotografia, presença, botão no peito, postagem em rede social, bandeira na mão ou participação em evento. Outra, completamente diferente, é entrar com o eleitor naquela cabine. Ali, a chibata fica do lado de fora.

Ouvi uma história que talvez seja a fotografia mais perfeita desse momento político: gente andando pela cidade com o celular praticamente coberto de adesivos e botons de Júnior Araújo, enquanto guarda, discretamente, o santinho de Zé Aldemir dentro da carteira. Não sei em que candidato essa pessoa vai votar. Ninguém sabe. E esse é exatamente o ponto. O voto é secreto.

Pode-se controlar a aparência. A consciência, não. Cajazeiras deveria conhecer muito bem esse filme. Na minha leitura, algo semelhante aconteceu na eleição municipal de 2024. Naquele momento, a disputa ganhou contornos de pressão sobre pessoas que ocupavam espaços na estrutura pública estadual. Ficou marcada, para muita gente, a atuação política de aliados de Chico Mendes, entre eles Alysson e Marcos Barros, em meio a reclamações de perseguição, cobranças e ameaças relacionadas a cargos.

Aquilo provocou revolta. E revolta eleitoral não faz barulho necessariamente. Às vezes ela sorri. Às vezes ela balança a cabeça. Às vezes ela coloca o adesivo. Às vezes ela vai à reunião. Às vezes ela tira uma fotografia abraçando o candidato. E depois espera o domingo da eleição. Foi nesse ambiente que Cajazeiras terminou escolhendo a candidata apoiada por Zé Aldemir.

Por isso, se existe hoje dentro da gestão municipal a ideia de que servidor, contratado ou comissionado precisa votar conforme determina quem lhe deu o emprego, alguém precisa avisar urgentemente: esse método pode sair muito caro politicamente.

Cajazeiras não é curral. Servidor público não é propriedade de prefeito. Contratado não é propriedade de secretário. Comissionado não é propriedade de vereador. Emprego não compra consciência. E salário pago com dinheiro público não transforma cidadão em patrimônio eleitoral de ninguém.

Existe uma frase antiga que continua atualíssima: gado a gente marca, tange, prende, engorda  e mata, mas com gente é diferente. Gente pensa. Gente sente. Gente se revolta. E, principalmente, gente vota escondido. Quanto maior a pressão, maior pode ser a reação silenciosa.

É por isso que considero perigosa qualquer estratégia baseada no medo. O medo pode até produzir fotografia. Pode produzir carreata cheia. Pode produzir adesivo em celular. Pode produzir postagem em rede social. Mas não existe pesquisa capaz de entrar completamente na cabeça de quem se sentiu humilhado. E não existe prefeito, deputado, secretário ou chefe político que consiga acompanhar o eleitor até a urna.

Na eleição, existe um instante em que desaparecem prefeito, secretário, vereador, deputado, chefe, patrão e cabo eleitoral. Ficam apenas duas pessoas: o eleitor e a consciência dele.

Por isso, diante de toda essa movimentação, talvez a maior lição que Cajazeiras possa novamente oferecer à política seja muito simples. Podem tentar mandar no adesivo. Podem tentar mandar no botão. Podem tentar mandar na fotografia. Podem tentar mandar na presença. Mas há uma coisa que ninguém consegue mandar. No voto. Porque, em Cajazeiras, no final das contas, quem resolve é o povo.

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