Campina Grande, o segundo maior colégio eleitoral da Paraíba, sempre foi um território decisivo para a formação de lideranças e estruturas políticas no estado. Entre os grupos mais influentes, a família Cunha Lima se consolidou como uma das dinastias de maior longevidade e presença no cenário paraibano, transformando capitais sociais e alianças estratégicas em poder contínuo.
O professor Jonas Duarte, doutor em História Econômica pela USP e docente do Departamento de História da UFPB, explica que a trajetória da família representa uma migração de influência rural para urbana. Segundo ele, o ponto de partida está no poder exercido pelo Coronel Cunha Lima no Brejo. Entretanto, foi com Ronaldo Cunha Lima, já em Campina Grande, que o grupo consolidou uma oligarquia urbana com forte capacidade de articulação.
“Ronaldo não era rico; vinha de uma família de classe média baixa. Mas conseguiu construir uma rede política influente em Campina Grande e, a partir daí, projetou a família para uma dimensão estadual. Ele formou alianças com grupos fortes e estabeleceu uma base sólida na cidade”, avaliou Jonas Duarte ao portal Fonte83.
Para o historiador, o domínio político de Campina Grande foi determinante. Mesmo sem grandes propriedades rurais, os Cunha Lima conquistaram espaço por meio de articulações, proximidade com o eleitorado urbano e alianças que se estenderam pelo interior. Esse conjunto permitiu que a família se mantivesse como um núcleo relevante da política estadual ao longo de várias gerações.
Caso Gulliver
Em 5 de dezembro de 1993, o então governador da Paraíba, Ronaldo Cunha Lima, entrou no restaurante Gulliver em João Pessoa e atirou contra o ex-governador e adversário político Tarcísio Buriti. Segundo relatos da época, os dois já vinham travando um conflito intenso, marcado por acusações e ameaças públicas. No local, após uma breve troca de palavras, Cunha Lima sacou a arma e disparou dois tiros contra Buriti, que foi socorrido e sobreviveu.
O ataque causou enorme repercussão nacional e tornou-se um dos episódios políticos mais marcantes da história recente da Paraíba. Cunha Lima alegou legítima defesa, afirmando que Buriti o ameaçava e teria demonstrado intenção de atacá-lo naquele momento. O caso gerou forte polarização política no estado e consolidou-se como um dos episódios mais controversos envolvendo figuras públicas paraibanas.
O legado de Ronaldo Cunha Lima — ex-prefeito de Campina Grande, ex-governador da Paraíba e ex-senador — segue moldando o cenário político. Seus filhos e netos ocuparam e ainda ocupam cargos estratégicos. Ronaldo Filho já foi vice-prefeito e secretário municipal. O neto Ronaldo Cunha Lima Neto atua atualmente como secretário de Esportes, Juventude e Lazer do município.
Caso Campestre: a briga que dividiu a Paraíba
A briga entre Zé Maranhão e Ronaldo Cunha Lima no Clube Campestre, em 1998, foi o estopim para o rompimento político entre eles, que vinham crescendo desde 1995. As principais divergências eram a sucessão no governo, com Maranhão querendo a reeleição e Ronaldo defendendo Cássio Cunha Lima, e a disputa por poder dentro do PMDB, onde os “ronaldistas” não aceitavam a autonomia de Maranhão. O episódio no Campestre, em março de 1998, foi a gota d’água, levando Ronaldo a deixar o partido para se filiar ao PSDB e se tornar adversário político de Maranhão.
Ascensão
Outro nome marcante é o de Cássio Cunha Lima, que trilhou uma carreira expressiva, passando pela prefeitura de Campina Grande, pelo governo do Estado e pelo Senado. Já o neto Pedro Cunha Lima, ex-deputado federal, mantém protagonismo no grupo e surge como uma das principais lideranças da nova geração.
A série especial do portal Fonte83, inaugurada por esta reportagem, pretende revisitar as famílias que moldaram a política paraibana, resgatando contextos históricos, memórias e estruturas de poder que atravessam diferentes épocas.




