Verônica Oliveira, Conselheira Tutelar ao lado de Gerson e Melo.

A conselheira tutelar Verônica Oliveira, em entrevista à jornalista Jaceline Marques no programa Ô Paraíba Boa nesta segunda-feira (1º), fez um dos relatos mais duros e contundentes sobre a trajetória de Gerson de Melo Machado, de 19 anos, morto no domingo (30) após invadir a jaula de uma leoa na Bica, em João Pessoa. Segundo ela, Gerson “gritava por socorro há anos”, mas o sistema falhou em todas as etapas.

Enquanto a conselheira detalhava a história de abandono, diagnósticos ignorados e tentativas de acolhimento que nunca receberam continuidade, veio à tona outro fato estarrecedor. A Justiça da Paraíba publicou justamente nesta segunda-feira (1º) a sentença que determinava a internação psiquiátrica de Gerson, conhecida como “Vaqueirinho”. A publicação oficial ocorreu um dia depois da morte do jovem, embora o juiz tivesse assinado a decisão em 30 de outubro de 2025.

O documento reconhecia que Gerson era portador de esquizofrenia, apresentava alto risco e precisava de internação imediata em um Hospital de Custódia e Tratamento Psiquiátrico. O magistrado classificou o tratamento ambulatorial como insuficiente diante da gravidade do quadro. A ordem, porém, só se tornou pública quando já não havia mais vida para salvar.

Durante a entrevista, Verônica revelou que conhecia Gerson desde os 10 anos, quando ele chegou ao Conselho Tutelar escoltado pela Polícia Rodoviária Federal após fugir de uma instituição de acolhimento. Segundo ela, ele já carregava marcas profundas de abandono familiar e histórico genético de graves transtornos mentais. A mãe e a avó tinham esquizofrenia severa. O pai, segundo ela, também tinha comprometimentos. Cinco irmãos foram destituídos e quatro acabaram adotados. Só Gerson ficou para trás porque, ainda criança, já demonstrava sinais de transtorno mental.

Verônica descreveu que, desde cedo, o menino tinha fascínio por leões e dizia repetidamente que iria “para a África domar leão”. Segundo ela, Gerson acreditava sinceramente que tinha essa capacidade, o que revela um delírio persistente. A conselheira destacou que tudo apontava para um grave transtorno psicótico. Disse ainda que ele não preferia a rua por rebeldia: “Ele achava mais fácil estar na rua livre do que morar com alguém”.

Ao longo dos anos, Gerson alternou momentos nas ruas, em instituições socioeducativas e no Hospital Juliano Moreira, que, segundo Verônica, era o lugar onde ele mais se sentia seguro. “Ele pulou o muro do SEIA para entrar de novo. Ele queria ficar preso. Ele dizia que lá lhe davam o remédio e cuidavam dele”, relatou.

Verônica afirmou que, ao observar todo o histórico, faria tudo novamente, cobraria o Judiciário, a rede de saúde e o sistema de justiça, e reforçou que há falhas acumuladas que atravessaram a vida inteira do jovem. Ela foi categórica: “Eu tenho prova documental de tudo que fizemos. Mas Gerson foi jogado à própria sorte. O sistema falhou demais”.

O ataque na Bica ocorreu durante o horário de visitação. Gerson escalou uma parede de mais de seis metros, rompeu grades e usou uma árvore como apoio para acessar o recinto. A leoa ficou estressada e está sendo monitorada pela equipe técnica.

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