O Botafogo-PB é um dos mais relevantes e vitoriosos clubes do futebol paraibano. - Foto: Reprodução

O futebol paraibano sempre foi marcado por clubes que ultrapassam as quatro linhas e se confundem com a própria história do estado. Na série Nossa Terra, Nossos Times, o portal Fonte83 revisita a trajetória das agremiações que ajudaram a construir a identidade esportiva da Paraíba, atravessando gerações, resistindo a crises e se consolidando como símbolos de pertencimento, memória e paixão popular.

A história do Botafogo Futebol Clube começa longe dos holofotes e perto do que há de mais genuíno no futebol: o entusiasmo juvenil. Em 28 de setembro de 1931, após uma reunião preliminar dias antes, um grupo de jovens estudantes de João Pessoa decidiu fundar mais um clube na cidade. O encontro aconteceu na casa de Beraldo Oliveira, então com apenas 18 anos, que acabou aclamado como o primeiro presidente da nova agremiação.

Ao lado de Beraldo, participaram da fundação nomes como Fernando Mello do Nascimento (Tareco), Duílio, Edson de Moura Machado, Enoch Lins, Herbert Miranda, Humberto Sorrentino, José Alves de Melo, José Justino, Livonete Pessoa, Milton Sorrentino, Wamberto Zenaide, Windsor Cunha (Souzinha), Hilton Gonçalves Carneiro (Louro), Lauro Feitosa, Manoel Feitosa (Nezinho), Raul Romero de Oliveira (Raulzinho), Severino Feitosa (Bilica), entre outros, todos jovens estudantes movidos mais pela paixão pelo jogo do que por qualquer ambição esportiva maior.

Inicialmente, o Botafogo nasceu como um time amador, voltado para partidas amistosas e para a prática informal do futebol. Não há registros que indiquem que seus fundadores fossem torcedores do Botafogo do Rio de Janeiro, embora a inspiração no nome do clube carioca fosse algo comum à época. Desde o início, a identidade alvinegra esteve presente. A primeira camisa da história do clube, adquirida com economias da mãe de Beraldo, Dona Sebastiana Oliveira, já trazia o preto e o branco.

Ainda em 1931, o Botafogo disputou sua primeira partida oficial, diante do Triunpho Foot Ball Club, também de João Pessoa. A vitória por 1 a 0 marcou o primeiro capítulo de uma trajetória que se tornaria central na história do futebol paraibano.

Do amadorismo ao primeiro título

Em 1932, empolgados com os primeiros passos, os jovens decidiram dar um salto maior. O Botafogo ingressou na Liga Suburbana, considerada uma competição secundária em relação à Liga Desportiva Parahybana, responsável pelo principal campeonato municipal da capital. No Campeonato Suburbano daquele ano, que reunia equipes de João Pessoa, Santa Rita e da comunidade de Barreiras (futura Bayeux), o Botafogo conquistou seu primeiro título oficial, iniciando uma rápida trajetória de crescimento.

Entre 1932 e 1936, o clube passou por transformações importantes. O crescimento chamou a atenção de figuras interessadas em profissionalizar a equipe. Entre elas, destacou-se o empresário Antônio Tourinho Paes Barreto, que passou a se envolver diretamente com o futebol do clube.

Primeiro time campeão estadual do Botafogo-PB em 1936. – Foto: Reprodução

Em 1935, um ano após o Botafogo se filiar à Liga Desportiva Parahybana e disputar pela primeira vez o Campeonato Paraibano, Tourinho assumiu a vice-presidência, ficando hierarquicamente abaixo apenas de Beraldo. As divergências entre os dois, no entanto, se intensificaram, culminando na renúncia de Beraldo em 1936. Tourinho assumiu o comando do futebol e, no mesmo ano, montou o primeiro time campeão estadual do clube.

A conquista do Campeonato Paraibano de 1936 marcou o início da consolidação do Botafogo como uma potência local. O investimento financeiro e a organização administrativa elevaram o patamar competitivo da equipe, que passou a disputar títulos com regularidade e a ampliar sua base de torcedores.

Política, poder e projeção estadual

Outro nome fundamental nesse processo foi Américo Filho, filho do ex-senador, ex-ministro e ex-governador da Paraíba, José Américo de Almeida. Jogador do clube nos primeiros anos, Américo Filho posteriormente se tornou dirigente e presidente, sendo peça-chave na aproximação do Botafogo com os círculos de poder político do estado.

Desportista nato e figura influente na sociedade paraibana, Américo Filho ajudou a transformar o Botafogo em um patrimônio simbólico do futebol estadual. Foi sob sua influência que o clube passou a realizar amistosos internacionais. Em 13 de dezembro de 1951, o Botafogo enfrentou o Vélez Sarsfield, da Argentina, no Estádio 1º de Maio, em João Pessoa. Apesar da derrota por 3 a 2, o confronto entrou para a história como o primeiro amistoso internacional do clube.

Foi também por volta da década de 1950 que surgiu a alcunha “Belo”. Segundo relatos do próprio clube, Antônio de Abreu e Lima, o Tonico — ex-jogador e ex-presidente, teria gritado repetidamente “que gol belo!” após um lance da equipe. O apelido se espalhou entre os torcedores e se tornou definitivo.

Hegemonia estadual e projeção nacional

Entre 1934, ano da estreia no Campeonato Paraibano, e 1970, o Botafogo conquistou 15 títulos estaduais, tornando-se o maior campeão da Paraíba até então, superando o Cabo Branco. A saída gradual do rival da elite do futebol local contribuiu para que o Belo se consolidasse como a principal referência da capital.

A partir da década de 1970, com a criação do Campeonato Brasileiro pela CBD, o futebol nacional passou por um processo de expansão, incentivado pelo regime militar. O Botafogo-PB estreou na elite nacional em 1976 e, ao todo, soma sete participações na Primeira Divisão, todas concentradas nesse período.

O auge dessa trajetória aconteceu em 1980, quando o clube, vice-campeão paraibano de 1979, disputou a Taça Ouro. Na campanha, o Botafogo-PB protagonizou feitos históricos, como a vitória por 2 a 1 sobre o Flamengo de Zico, no Maracanã, a única derrota do time carioca em casa naquela edição. Em João Pessoa, o Belo também venceu o Internacional de Falcão e Batista por 2 a 1.

Placar do jogo entre Flamengo x Botafogo-PB no Campeonato Brasileiro de 1980 – Foto: Reprodução

As vitórias renderam destaque nacional. A Revista Placar estampou um pôster da equipe com o apelido de “Matador de tricampeões”, em referência a Flamengo e Internacional, então tricampeões estaduais em seus respectivos estados. O Botafogo encerrou a competição na 20ª posição entre 44 clubes, sua melhor campanha na elite nacional.

Crises, retomadas e a taça nacional

A década de 1990 foi marcada por crise. O clube ficou fora das competições nacionais, investiu pouco no estadual e viu equipes do interior crescerem. Entre 1988 e 1997, o Botafogo não conquistou títulos estaduais.

A retomada veio em 1998, com a conquista do Campeonato Paraibano e um recorde histórico de público: 44.268 torcedores na final do terceiro turno contra o Campinense, o maior público do futebol paraibano até hoje.

Em 2003, o Belo voltou a vencer o estadual e fez grande campanha na Série C, terminando em terceiro lugar, a um passo do acesso. No entanto, a partir daí, novas crises financeiras e administrativas afastaram o clube do cenário nacional entre 2007 e 2012.

A virada aconteceu em 2013, após uma pacificação política interna. Com Marcelo Vilar no comando e uma base formada por jogadores que haviam sido bicampeões pelo Treze, o Botafogo conquistou o estadual e, posteriormente, a Série D do Campeonato Brasileiro — o único título nacional da história do futebol paraibano.

Desde o acesso, o clube se mantém de forma ininterrupta na Série C, acumulando, em 2026, 13 participações consecutivas.

Era SAF

Em 2025, o Botafogo-PB entrou oficialmente em uma nova era ao se transformar em Sociedade Anônima do Futebol. A concretização da SAF foi resultado de um processo longo, que se estendeu por mais de seis meses e foi marcado por expectativas, incertezas e mudanças profundas nos bastidores.

Dentro de campo, os resultados ficaram abaixo do esperado, mas administrativamente o clube passou por uma reestruturação significativa. Em fevereiro, a SAF foi oficialmente formalizada, com a entrada inicial dos empresários Lucas Franzato, Celso Colombo Neto e Marcelo Campos Pinto, que adquiriram 90% das ações. Ao longo das negociações, porém, a figura de Fillipe Félix ganhou protagonismo, passando de patrocinador máster a investidor majoritário do projeto. O contrato final estabeleceu Fillipe como principal controlador da Belo SAF.

Fillipe Félix, investidor da SAF do Botafogo-PB – Foto: João Neto/Botafogo-PB

O acordo prevê investimentos próximos de R$ 9 milhões, grande parte destinada à quitação de dívidas trabalhistas via Regime de Execução Centralizada (RCE), além de um compromisso financeiro mensal elevado, que simboliza o peso e a responsabilidade da nova gestão. Assim, o Belo inicia um capítulo inédito de sua história, apostando na SAF como caminho para reorganização financeira, estabilidade administrativa e reconstrução esportiva.

Identidade, cores e legado

A identidade visual do Botafogo-PB também reflete sua história. Fundado alvinegro, o clube incorporou o vermelho em 1937, por iniciativa de Tourinho, mesmo contra a vontade de Beraldo. Décadas depois, o vermelho retornou de forma simbólica na estrela solitária do escudo, em alusão à bandeira da Paraíba.

Dos primeiros amistosos em 1931 ao título nacional de 2013, os 94 anos do Botafogo Futebol Clube se confundem com a própria trajetória do futebol paraibano. Um clube que nasceu da juventude, atravessou crises e glórias, e se consolidou como um dos maiores símbolos esportivos da Paraíba.

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