A polarização transformou adversários em inimigos (Eraldo Peres/AP/Imageplus)

A polarização política no deixou de ser um debate de ideias para se transformar em um surto coletivo. Entre o ódio de estimação e a cegueira ideológica, os brasileiros estão sacrificando o que lhes restava de humanidade.

O Brasil atual assemelha-se a um hospício a céu aberto. O que vemos nas ruas e nas redes sociais não é democracia; é um tribalismo primitivo onde a inteligência foi exilada. A nação mergulhou em uma patologia onde o “outro” — seja ele o vizinho, o colega ou o próprio irmão — não é mais alguém com uma opinião diferente, mas um inimigo que precisa ser aniquilado.

A divisão entre “direita” e “esquerda” virou uma muleta para a mediocridade. É a desculpa perfeita para a intolerância de quem tem preguiça de pensar. O resultado é devastador: famílias desfeitas, amizades de décadas rompidas e uma sociedade composta por analfabetos afetivos que não suportam o contraditório.

O ídolo no altar e o povo no chão

A grande ironia dessa guerra civil de etiquetas é que ela é travada por quem não ganha nada com isso. Enquanto o cidadão médio “espuma de raiva” para defender o seu político de estimação, as figuras de poder brindam nos bastidores, unidas pelos privilégios que a própria massa de manobra financia.

Não há patriotismo ou consciência social no ódio. Quem bloqueia um parente ou humilha um vizinho por conta de uma urna não é um “guerreiro da liberdade”, é apenas alguém com o caráter falido. Se a sua ideologia vale mais do que os laços de sangue e a convivência civilizada, o seu problema não é político, é moral.

A conta vai chegar

É preciso um choque de realidade: no dia em que a vida apertar, não será o político no palanque quem estenderá a mão. Será aquele vizinho que você parou de cumprimentar ou aquele parente que você baniu da sua vida.

O Brasil só voltará à sanidade quando o respeito for maior que o fanatismo. Até lá, continuaremos sendo uma nação de fanáticos perigosos, reféns de um orgulho bobo, morrendo de sede ao lado da fonte da convivência humana.