A morte de Antônio Mariz interrompeu precocemente seu projeto de governo e colocou o vice José Maranhão diante da responsabilidade de conduzir a Paraíba até o fim daquele mandato. No quinto episódio da série documental “Memória do Poder”, o Fonte83 revisita a chegada de Maranhão ao Palácio da Redenção, em setembro de 1995, e os principais acontecimentos de seu primeiro governo. A reportagem resgata a construção de sua liderança política, a política de austeridade nas contas públicas, os investimentos em infraestrutura, as obras hídricas e de eletrificação rural e a consolidação da imagem de “Zé das Águas”, que ajudaria a levar Maranhão à reeleição em 1998.

Capítulo 1 – A morte de Mariz e a chegada de Maranhão

A morte de Antônio Mariz, em 16 de setembro de 1995, interrompeu precocemente o primeiro ano de uma gestão que havia começado apenas oito meses antes. Diagnosticado com câncer, o governador morreu na Granja Santana, em João Pessoa, provocando comoção na Paraíba e luto oficial em todo o país. No dia seguinte, o vice-governador José Targino Maranhão assumiu o comando do Estado diante de uma situação política delicada: precisava garantir a continuidade de um governo recém-iniciado e, ao mesmo tempo, construir sua própria identidade à frente do Palácio da Redenção. A posse ocorreu em 16 de setembro, conforme registros do Tribunal Regional Eleitoral e da imprensa da época.

Governador Antônio Mariz e seu vice Zé Maranhão comemorando a vitória em 1994. – Foto: Arquivo

Maranhão não era um personagem desconhecido da política paraibana. Natural de Araruna, havia construído uma longa carreira parlamentar antes de chegar à vice-governadoria. Foi deputado estadual por quatro mandatos e deputado federal por três legislaturas, retornando ao cenário político após ter sido cassado pelo regime militar em 1969. Na Câmara dos Deputados, participou da redemocratização, votou a favor da Emenda Dante de Oliveira, apoiou Tancredo Neves no Colégio Eleitoral e participou da Assembleia Nacional Constituinte que elaborou a Constituição de 1988. Em 1994, foi eleito vice-governador na chapa de Antônio Mariz.

A sucessão aconteceu também em um momento econômico particularmente delicado. O Brasil havia acabado de implantar o Plano Real e iniciava uma nova fase de estabilidade monetária, enquanto os governos estaduais enfrentavam dificuldades para equilibrar suas contas e manter capacidade de investimento. Na Paraíba, pouco antes da posse definitiva de Maranhão, a Assembleia Legislativa autorizara a contratação de um empréstimo de R$ 50 milhões para renegociar parte da dívida estadual. O novo governador, portanto, recebeu um Estado que precisava simultaneamente controlar suas despesas, reorganizar as finanças e manter investimentos públicos.

A primeira decisão política de Maranhão foi não romper com o projeto que havia construído ao lado de Mariz. Pessoas próximas aos dois governos relatam que os dois haviam discutido conjuntamente as prioridades da administração e que Maranhão decidiu preservar aquela agenda. A escolha permitiu que a transição ocorresse sem uma ruptura brusca e deu ao novo governador uma plataforma sobre a qual construir sua própria gestão. A partir dali, porém, Maranhão começaria a imprimir uma marca administrativa que se tornaria uma das mais lembradas de sua trajetória: a combinação entre controle das contas públicas e investimentos em infraestrutura, sobretudo no interior do Estado.

Capítulo 2 – Austeridade e desenvolvimento

O primeiro governo José Maranhão foi construído sobre uma premissa que acompanharia sua imagem política durante anos: gastar com rigor para conseguir investir. Com o Plano Real, os governos estaduais precisavam se adaptar a uma economia sem a possibilidade de recorrer aos mecanismos inflacionários que haviam marcado a década anterior. Ao mesmo tempo, Maranhão precisava preservar a capacidade do Estado de financiar obras e serviços públicos.

A estratégia passou pela busca de financiamentos e convênios com o Governo Federal, enquanto o Estado tentava ampliar sua arrecadação e reorganizar a administração tributária. Em um pronunciamento feito posteriormente no Senado, Maranhão afirmou que seu governo havia conseguido equilibrar as finanças estaduais e manter os compromissos em dia. Documentos da Câmara dos Deputados produzidos no final de seu primeiro mandato também registraram a avaliação de que o governador havia conseguido organizar as contas do Estado apesar do elevado endividamento encontrado ao assumir.

Zé Maranhão no telefone. – Foto: Arquivo / Rede Paraíba

Mas a austeridade não significou uma administração voltada apenas para o ajuste fiscal. Pelo contrário: Maranhão procurou transformar a economia obtida com o controle das contas em capacidade de investimento. Foi nesse contexto que surgiram projetos de barragens, açudes, adutoras, eletrificação rural e abastecimento de água. A presença constante do governador no interior também passou a fazer parte de sua imagem pública. Em vez de concentrar as ações administrativas na capital, Maranhão percorria municípios e comunidades para acompanhar obras e inaugurações.

Essa política ajudou a construir dois apelidos que acompanhariam o governador: “Mestre de Obras” e, principalmente, “Zé das Águas”. A alcunha estava relacionada à quantidade de obras hídricas espalhadas pelo Estado e à presença de Maranhão em comunidades que dependiam de abastecimento, açudes e adutoras. O próprio ex-governador afirmou posteriormente que, durante sua gestão, foram construídas 14 barragens, 37 quilômetros de canais de transposição e mais de mil quilômetros de adutoras. Embora esses números sejam uma prestação de contas feita pelo próprio Maranhão anos depois, eles ajudam a dimensionar a centralidade que a política hídrica ocupou em seu primeiro governo.

Capítulo 3 – O governo das águas e do último candeeiro

Entre as principais realizações da administração estava a expansão da infraestrutura hídrica. Barragens, açudes, adutoras e sistemas de abastecimento passaram a ocupar lugar central na política de desenvolvimento estadual, especialmente no interior. Em uma Paraíba ainda profundamente dependente das condições climáticas, garantir água significava mais do que assegurar o consumo das populações: representava criar condições para a agricultura, reduzir os efeitos das secas e ampliar a capacidade produtiva de regiões historicamente vulneráveis à irregularidade das chuvas.

Canal da Redenção

Uma das obras mais emblemáticas foi o Canal da Redenção, no Sertão. O projeto havia sido articulado ainda durante o governo Antônio Mariz e acabou sendo concretizado durante a administração Maranhão. A obra levou água para a região das várzeas de Sousa e tornou-se símbolo da política hídrica do governo. A ligação entre planejamento e execução também explica por que a gestão Maranhão é frequentemente apresentada como continuidade, nesse aspecto, do projeto administrativo iniciado por Mariz.

A eletrificação rural foi outra frente importante. O governo lançou uma política conhecida pela expressão “apagar o último candeeiro”, numa referência direta à intenção de levar energia elétrica às comunidades rurais que ainda dependiam de iluminação rudimentar. A iniciativa tinha forte dimensão social: significava ampliar o acesso à energia para famílias que viviam fora dos grandes centros e, ao mesmo tempo, criar condições para melhorar atividades econômicas e serviços básicos nessas localidades. A combinação entre eletrificação e obras de abastecimento ajudou a fortalecer a presença do governo estadual em municípios pequenos e comunidades distantes.

A educação também apareceu entre as prioridades. A gestão investiu na qualificação dos professores da rede estadual, criando programas de formação distribuídos por diferentes polos do Estado. Segundo o ex-secretário de Educação Salles Gaudêncio, foram oferecidas bolsas para que professores pudessem se deslocar até os núcleos de capacitação, numa tentativa de enfrentar a deficiência de formação existente na rede. O governo também intensificou ações de combate ao analfabetismo. Assim, ao lado das grandes obras de infraestrutura, Maranhão procurou construir uma agenda de serviços públicos voltada principalmente para as regiões mais afastadas dos grandes centros.

Capítulo 4 – O racha no Campestre e a reeleição

A sucessão de 1998 começou a expor uma disputa que vinha crescendo dentro do PMDB. De um lado, José Maranhão, que havia assumido o governo após a morte de Antônio Mariz e agora buscava permanecer no cargo por meio da reeleição. Do outro, o grupo liderado pelo senador Ronaldo Cunha Lima, que ainda exercia enorme influência sobre o partido e defendia maior espaço político para os aliados ligados à família Cunha Lima. Segundo relatos históricos e estudos acadêmicos sobre o período, a tensão entre as duas correntes se intensificou à medida que Maranhão ampliava sua autonomia política e administrativa.

O momento que transformou a disputa interna em ruptura pública aconteceu em 21 de março de 1998, durante a festa de aniversário de Ronaldo Cunha Lima, no Clube Campestre, em Campina Grande. Cerca de dois mil convidados estavam presentes, entre eles importantes lideranças do PMDB. Maranhão compareceu à comemoração acompanhado de integrantes do governo e levou ordens de serviço para obras públicas em Campina Grande, numa tentativa de demonstrar proximidade com a cidade e, segundo relatos da época, de contribuir para a pacificação entre os grupos. A chegada do governador, porém, foi acompanhada por um intenso foguetório, e o episódio acabou aumentando ainda mais a tensão.

Zé Maranhão e Ronaldo Cunha Lima no Clube Campestre, em Campina Grande.

Quando chegou sua vez de discursar, Ronaldo Cunha Lima direcionou suas palavras ao governador e fez duras críticas à condução do Estado. Em tom de desafio, afirmou: “Escuta aqui, governador, se o senhor não tem condições de tomar conta direito do meu Estado, saiba que eu vou tomar o Estado do senhor…”. O discurso marcou publicamente o rompimento entre os dois líderes. Relatos posteriores descrevem aquela noite como o momento em que uma divergência que já existia nos bastidores ganhou uma dimensão irreversível diante da cúpula política paraibana. A literatura acadêmica sobre o período também identifica o episódio do Campestre como o marco da divisão do PMDB entre os grupos maranhista e ronaldista.

A partir dali, o conflito avançou para dentro do partido. A disputa pelo controle do diretório estadual colocou novamente frente a frente as duas correntes, e o grupo ligado a Maranhão acabou vencendo a convenção. Ronaldo Cunha Lima, seu filho Cássio Cunha Lima e aliados deixaram o PMDB e migraram para o PSDB, reorganizando a oposição em torno da candidatura de Maranhão à reeleição. O rompimento encerrou uma aliança que havia sido fundamental para a chegada de Mariz ao governo em 1994 e abriu uma das mais duradouras rivalidades da política paraibana.

Com o PMDB sob seu controle e o grupo Cunha Lima fora da legenda, Maranhão disputou a eleição de 1998 buscando a continuidade do governo iniciado após a morte de Mariz. O resultado foi uma vitória expressiva: José Maranhão foi reeleito no primeiro turno, consolidando-se como o primeiro governador da Paraíba a conquistar um segundo mandato pelo voto direto após a aprovação da possibilidade de reeleição no Brasil. O episódio do Campestre, que começou como uma crise entre dois aliados, terminou produzindo uma nova configuração das forças políticas do Estado e seria lembrado por décadas como o momento em que a política paraibana se dividiu em dois grandes grupos.

O primeiro governo de José Maranhão terminou, portanto, de maneira muito diferente de como havia começado. Ele havia assumido o cargo em meio ao luto pela morte de Antônio Mariz, inicialmente com a missão de preservar um projeto que não era originalmente seu. Quatro anos depois, deixava de ser apenas o vice que havia sucedido um governador morto para se tornar uma liderança própria, legitimada novamente pelas urnas. A austeridade fiscal, a expansão da infraestrutura hídrica, a eletrificação rural e a presença constante no interior ajudaram a construir a imagem do “Zé das Águas” e prepararam o terreno para um segundo mandato que seria marcado por uma nova configuração política e por uma disputa cada vez mais intensa pelo poder na Paraíba.

Série Especial | Memória do Poder
Uma produção documental do Fonte83 sobre os governos que marcaram a política paraibana desde a redemocratização.

Memória do Poder – Capítulo 1: Tarcísio Burity e o retorno da democracia

Memória do Poder – Capítulo 2: Ronaldo Cunha Lima, o poeta que chegou ao governo

Memória do Poder – Capítulo 3: Cícero Lucena e o governo de transição na Paraíba

Memória do Poder – Capítulo 4: Antônio Mariz e o governo interrompido

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