A presença de uma empresa chinesa ligada à indústria militar no projeto do Radiotelescópio BINGO, em construção no Sertão da Paraíba, voltou a repercutir após entrevista do secretário de Ciência e Tecnologia do estado, Cláudio Furtado, ao programa Ô Paraíba Boa, nesta quinta feira (5).
Durante a entrevista, Furtado foi questionado sobre o fato de a empresa responsável pela estrutura do radiotelescópio, a CETC 54, possuir ligações diretas com o setor de defesa da China e ser especializada em guerra eletrônica e em tecnologias de rastreamento de mísseis e satélites. Mesmo diante das informações, o secretário minimizou o assunto e afirmou que o projeto tem finalidade exclusivamente científica.
Segundo ele, o BINGO é um equipamento voltado ao estudo do universo e não possui qualquer relação com atividades militares ou de vigilância.
“O BINGO é um projeto científico. Ele foi criado para estudar o universo, a matéria escura e as ondas de rádio do Big Bang. Não existe qualquer finalidade militar”, afirmou o secretário durante a entrevista.
O tema ganhou repercussão internacional após um relatório divulgado pelo Congresso dos Estados Unidos, em março de 2026, apontar o radiotelescópio instalado no município de Aguiar como possível componente de uma suposta rede de espionagem chinesa na América do Sul.
O alerta se concentra justamente na empresa responsável pela fabricação da estrutura metálica e dos refletores do equipamento. A CETC 54, estatal chinesa ligada ao China Electronics Technology Group Corporation, é considerada uma das principais empresas da indústria de defesa de Pequim.
A companhia é especializada em guerra eletrônica, sistemas de monitoramento e tecnologias avançadas de radar, além de desenvolver equipamentos de comunicação estratégica utilizados pelo Exército de Libertação Popular da China. Entre as áreas de atuação também estão tecnologias de rastreamento de mísseis, monitoramento de satélites e sistemas de inteligência aeroespacial.
Devido a essas ligações com o setor militar, a CETC 54 está incluída na chamada Entity List do Departamento de Comércio dos Estados Unidos. A lista reúne empresas consideradas de uso final militar e que sofrem restrições severas para receber tecnologia americana.
Segundo o relatório americano, o fato de a empresa fabricar os refletores e a estrutura metálica do BINGO poderia abrir precedentes para o uso de sensores ou sistemas de vigilância capazes de monitorar comunicações eletrônicas ou até rastrear satélites no Atlântico Sul.
Apesar das suspeitas levantadas pelo documento internacional, o Governo da Paraíba e os coordenadores do projeto reforçam que o radiotelescópio tem finalidade exclusivamente acadêmica. O projeto é liderado por pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP) e do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), com participação de instituições internacionais.
De acordo com Cláudio Furtado, a escolha da empresa chinesa ocorreu por critérios técnicos e pela experiência da companhia na construção de grandes antenas e estruturas metálicas de precisão utilizadas em projetos científicos de grande porte.
O Radiotelescópio BINGO está sendo construído no município de Aguiar, no Sertão da Paraíba, e terá dimensões comparáveis às de um estádio de futebol. O equipamento foi projetado para captar ondas de rádio provenientes das primeiras fases do universo e ajudar cientistas a compreender melhor a distribuição da matéria escura no cosmos.



