O neurocirurgião e especialista em dor, Nêuton Magalhães, doutor pela USP, participou do programa Ô Paraíba Boa e fez um alerta sobre a formação médica no Brasil, a interiorização da medicina e o avanço dos casos de dor crônica, incluindo sequelas de chikungunya e problemas de coluna.
Durante a entrevista, o médico comentou o baixo desempenho de recém-formados em exames nacionais e atribuiu parte do problema às mudanças curriculares dos cursos de Medicina nos últimos anos.
Segundo ele, houve uma redução na carga horária de disciplinas tradicionais. “Você tem cerca de três aulas de três horas de neurologia por semana em qualquer faculdade aqui do Brasil. Houve uma mudança nos currículos de medicina nos últimos 15 anos”, afirmou.
De acordo com o especialista, o modelo atual prioriza a atenção básica em detrimento de áreas como neurologia, cardiologia e gastroenterologia. “Há um aumento da carga horária para disciplinas da atenção básica em detrimento de disciplinas tradicionais”, destacou.
Ele também criticou o afastamento dos estudantes do contato com especialistas. “Há um movimento para os alunos não terem contato com especialista, para não serem estimulados a ser especialista, para serem mais generalistas”, disse.
Para Nêuton, a dificuldade de fixar médicos no interior não está apenas na formação, mas na falta de estrutura e estabilidade profissional. “O problema é maior. Por que o médico não vai para o interior? Porque não tem estabilidade, não tem concurso. É contrato temporário”, afirmou.
Ele comparou com outras carreiras públicas: “O recém-formado em Direito vai para o interior porque tem concurso, tem progressão, tem carreira, tem casa para morar, tem segurança. O médico não tem isso”.
O médico também criticou a abertura indiscriminada de cursos como solução para interiorizar a saúde. “A forma que o governo entendeu de interiorizar a medicina foi abrindo escolas no interior de qualquer jeito. Não resolve porque não há estabilidade”, pontuou.
Dor crônica e chikungunya
Ao abordar as dores crônicas após infecções como chikungunya, Nêuton explicou que algumas pessoas possuem predisposição genética.
“Algumas pessoas nascem com uma predisposição genética a ter dor e, a partir de um determinado momento, com a interação de fatores ambientais ou biológicos, desenvolvem dor crônica”, explicou.
Ele destacou que infecções virais podem ser gatilho para esse quadro. “Esse momento pode ser uma infecção viral, no caso da chikungunya”, afirmou.
Segundo o especialista, há tratamento, embora nem sempre seja simples. “Nós tratamos sim, a gente tem que usar alguns medicamentos específicos, anti-inflamatórios, corticoides”, disse.
Hérnia de disco e dores na coluna
Sobre dores lombares e hérnia de disco, o neurocirurgião buscou desmistificar o problema.
“Hérnia de disco, todos nós temos. Faz parte do nosso envelhecimento”, declarou. Ele ressaltou que nem toda hérnia provoca dor: “Só 4% das hérnias geram dor e só 2% precisam de cirurgia”.
De acordo com ele, a maioria das dores na coluna tem outra origem. “87% das dores na coluna surgem a partir de erros de postura e principalmente do sedentarismo”, afirmou.
Como principal recomendação, o especialista foi enfático: movimento é fundamental.
“Nada é mais potente para o cérebro do que fazer atividade física”, disse.
“Todas as pessoas com dor têm que lutar todos os dias minimamente para se movimentar, porque se não se movimentar, não vai melhorar”, completou.
Ele ainda citou a orientação da Organização Mundial da Saúde para quem sofre de enxaqueca: “A Organização Mundial de Saúde recomenda que as pessoas com enxaqueca devem fazer pelo menos 150 minutos de atividade física por semana”.
A entrevista reforçou o alerta sobre os desafios na formação médica e destacou a importância da prevenção e do estilo de vida ativo como aliados no combate à dor crônica.



