A psicóloga Célia Chaves comentou, nesta segunda-feira (1º), durante entrevista ao programa Ô Paraíba Boa, o caso que chocou João Pessoa no último domingo. O jovem Gerson de Melo Machado, de 19 anos, invadiu o recinto de uma leoa no Parque Arruda Câmara, a Bica, em um episódio que foi filmado por visitantes. O ataque ocorreu em pleno horário de funcionamento do parque. Para alcançar a jaula, o jovem escalou mais de seis metros de parede, passou pelas grades de proteção e ainda usou uma árvore como apoio. A leoa ficou em choque e precisou ser contida pela equipe técnica.
Para a psicóloga, o episódio não pode ser tratado como um ato isolado ou meramente impulsivo. Célia afirma que Gerson apresentava sinais de um transtorno mental grave, muito provavelmente esquizofrenia, que costuma surgir justamente no início da vida adulta. Ela explica que, nesse tipo de quadro, o paciente pode experimentar delírios e alucinações, e aponta que Gerson demonstrava delírio de pensamento ao acreditar que poderia domar um leão.
Célia disse que o caso revela a negligência histórica com pessoas em sofrimento psíquico. Para ela, Gerson não se jogou na jaula. Ele foi empurrado pela vida, pela falta de cuidado, pela ausência de vínculo familiar e pelo abandono das políticas públicas. A especialista lembrou que ele perdeu a mãe, que também tinha esquizofrenia, que havia histórico semelhante na família e que o jovem passou boa parte da vida em cerceamento de liberdade, chegando a ser internado ou apreendido 16 vezes desde os 10 anos. Segundo a psicóloga, nenhuma dessas medidas representou tratamento, apenas punição para alguém que precisava de acolhimento.
Célia chamou atenção para um dado revelado pela conselheira tutelar que acompanhou o caso. O lugar onde Gerson dizia se sentir mais seguro era dentro do Hospital Juliano Moreira. Ele afirmava que queria voltar para lá porque ali recebia remédio e cuidados. Para a psicóloga, essa frase é um grito de socorro e expõe a falha da rede de proteção.
Ela também relatou que, dias antes do caso, viu nas ruas de João Pessoa uma mulher em sofrimento mental sendo agredida e reforçou que a cidade está cheia de pessoas como Gerson, invisíveis, sem assistência, e que só viram notícia quando ocorre uma tragédia.
A especialista defendeu o fortalecimento dos CAPS e da intersetorialidade entre saúde, assistência social e sistema de justiça. Segundo ela, quando a rede funciona, o surto não vira tragédia. E concluiu afirmando que o jovem provavelmente estava em crise psicótica quando escalou o muro de seis metros, atravessou as grades e entrou na jaula acreditando que poderia dominar a leoa. Gerson não precisava de cela ou repressão. Precisava de cuidado continuado, vínculo e tratamento.



