O diretor do Trauminha de João Pessoa, doutor Alexandre César, comentou nesta quinta-feira (22) o resultado das avaliações do Exame Nacional de Avaliação da Formação Médica (Enamed), que levaram à punição de quatro cursos de medicina com atuação na Paraíba. As instituições tiveram desempenho considerado insuficiente e sofrerão redução no número de vagas para ingresso, conforme dados divulgados pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep) na última segunda-feira (19).
Segundo Alexandre César, o debate vai além da qualidade das faculdades e envolve, sobretudo, a formação educacional e a maturidade dos estudantes que ingressam nos cursos de medicina. Com experiência tanto na prática médica quanto na docência, ele afirmou que o problema começa muito antes da universidade.
“O aluno começa a ser médico muito antes da faculdade. É no ensino fundamental e médio que ele aprende a ler, a raciocinar, a construir pensamento crítico. Isso é proficiência. Hoje, mesmo com mais acesso à informação, temos médicos se formando com notas piores”, avaliou.
Para o diretor, há um paradoxo evidente: enquanto o acesso a livros, artigos científicos e conteúdos digitais nunca foi tão amplo, o desempenho acadêmico caiu. Ele atribui esse cenário à mudança no comportamento dos estudantes, especialmente com o impacto das redes sociais e da busca por resultados rápidos.
“Essa geração quer resposta imediata. Não quer passar horas estudando, lendo, amadurecendo. Quer apenas o resultado: passar no vestibular”, criticou em entrevista ao programa Ô Paraíba Boa, da rádio 100.5FM.
Alexandre César relembrou que, no passado, estudantes levavam anos tentando aprovação em vestibulares concorridos, especialmente nas universidades federais, o que gerava maturidade acadêmica e hábito de estudo intenso. Segundo ele, esse processo foi alterado com a ampliação de vagas em faculdades privadas e o fim do Fies.
“Atualmente, só em João Pessoa são mais de 600 vagas de medicina por semestre para cerca de 500 candidatos. Vai sobrar vaga. Isso reduz o nível de exigência. Quem tem condição financeira entra, independentemente da base educacional”, afirmou.
O médico também isentou as instituições de ensino superior de responsabilidade direta pelos baixos resultados no Enamed, ressaltando que muitas faculdades privadas possuem estrutura superior à das públicas.
“O problema não é a faculdade. É o aluno que entra sem saber estudar, sem maturidade de leitura, sem base em química, física, biologia. Como vai entender uma gasometria se não sabe o que é ácido e base? Como interpretar um eletrocardiograma sem noções de eletrofisiologia?”, questionou.
Alexandre César revelou ainda que decidiu encerrar seu cursinho preparatório quando percebeu que os alunos não estavam interessados no aprendizado, apenas na aprovação. “Ouvi de um aluno: ‘Não quero aprender, quero passar’. Ali percebi que eu não estava mais sendo ouvido”, relatou.
Por fim, o diretor do Trauminha alertou para as consequências desse modelo de formação no futuro da medicina e defendeu uma mudança de paradigma, com maior cobrança também por parte das famílias.
“É bonito dizer que o filho faz medicina, mas quando você pergunta o básico, a maioria não sabe responder. Essa conta está chegando agora, com os resultados dessas avaliações”, concluiu.




