Um caso que chocou a Paraíba, envolvendo uma mulher que mutilou o marido após descobrir suspeitas de abusos sexuais contra os próprios filhos, provoca indignação, mas também levanta questões importantes sobre o funcionamento psicológico diante de situações extremas. É fundamental deixar claro: compreender psicologicamente uma reação não significa justificá-la.

Quando uma pessoa percebe que alguém vulnerável está sendo submetido a uma ameaça grave, especialmente uma criança, podem ser ativados mecanismos intensos de defesa e proteção. Medo, raiva, sensação de impotência e desespero podem se combinar e reduzir a capacidade de avaliar as consequências de uma ação de maneira racional e ponderada.

Em contextos de violência, a chamada resposta de luta ou fuga pode assumir proporções extremas. A pessoa pode experimentar uma intensa ativação emocional, com alterações na atenção, no julgamento e no controle dos impulsos. Isso não significa, entretanto, que toda pessoa submetida a uma situação semelhante reagirá da mesma maneira.

Além disso, o abuso sexual infantil produz impactos psicológicos profundos não apenas na vítima, mas também na família. A descoberta pode provocar sentimentos de culpa, revolta, vergonha, impotência e ruptura da confiança. Quando o suposto agressor ocupa uma posição de proximidade ou autoridade, o impacto pode ser ainda mais devastador.

Por isso, talvez a pergunta mais importante não seja apenas “como alguém foi capaz de fazer isso?”, mas também: “O que acontece psicologicamente quando uma pessoa se sente diante de uma ameaça que acredita precisar interromper a qualquer custo?”

A Psicologia não existe para absolver ou condenar atos violentos. Ela existe também para compreender os processos emocionais e comportamentais que estão por trás deles.

E, em casos de abuso sexual infantil, uma prioridade precisa permanecer inegociável: proteger a criança, interromper o ciclo de violência e garantir atendimento psicológico e proteção adequados às vítimas.