A redemocratização da Paraíba iniciada com a eleição de Tarcísio Burity abriu caminho para uma nova geração de lideranças políticas. No segundo episódio da série documental “Memória do Poder”, o Fonte83 revisita a eleição de Ronaldo Cunha Lima, em 1990, e analisa como o ex-prefeito de Campina Grande transformou sua popularidade em uma das gestões mais marcantes da história recente do Estado. Entre o carisma, os desafios econômicos e os embates políticos, a reportagem resgata os acontecimentos que marcaram sua passagem pelo Palácio da Redenção.
CAPÍTULO 1 – A eleição de 1990: a vitória do poeta

Em 3 de outubro de 1990, a Paraíba voltou às urnas para escolher seu segundo governador pelo voto direto desde a redemocratização. O vencedor foi Ronaldo Cunha Lima (PMDB), que derrotou Wilson Braga (PDS) em uma disputa marcada pela polarização entre dois dos maiores líderes políticos do estado. A eleição ocorreu em meio às primeiras dificuldades do governo Fernando Collor de Mello, ao início do Plano Collor e às incertezas econômicas que marcaram o começo da década de 1990.
Diferentemente da eleição anterior, quando abriu mão da candidatura para apoiar Tarcísio Burity, Ronaldo chegou ao pleito de 1990 como favorito. Ex-prefeito de Campina Grande, havia consolidado sua imagem como um gestor popular e um político de forte apelo popular, conhecido também por sua atuação como poeta e advogado. Sua administração na Rainha da Borborema reforçou uma liderança que ultrapassava os limites do município e o transformou em uma das principais figuras da política paraibana.
O caminho até a candidatura, entretanto, também passou por disputas internas. As divergências entre Ronaldo e Tarcísio Burity, que surgiram ainda nos primeiros meses do governo iniciado em 1987, enfraqueceram a unidade do PMDB. Ao final do mandato de Burity, a legenda já não apresentava a mesma coesão que havia garantido a vitória quatro anos antes, e a sucessão estadual consolidou uma nova reorganização das forças políticas paraibanas.
A vitória de Ronaldo Cunha Lima representou não apenas a alternância no comando do Palácio da Redenção, mas também a consolidação de um novo grupo político no estado. O governo que se iniciaria em março de 1991 carregava grandes expectativas, impulsionadas pelo prestígio conquistado pelo governador em Campina Grande e pela promessa de ampliar para toda a Paraíba um modelo de gestão baseado em investimentos públicos e forte proximidade com a população.
CAPÍTULO 2 – O governador de Campina Grande
Ao assumir o governo em 15 de março de 1991, Ronaldo Cunha Lima encontrou um estado afetado pelos reflexos da crise econômica nacional. O confisco das poupanças promovido pelo Plano Collor, a inflação persistente e a desaceleração da economia impunham limitações às finanças estaduais. Ainda assim, o novo governador buscou imprimir um estilo de gestão próximo da população, característica que já havia marcado sua trajetória política em Campina Grande.
Conhecido pelo discurso acessível e pela habilidade de comunicação, Ronaldo procurou descentralizar as ações do governo e fortalecer a presença do Estado em diferentes regiões da Paraíba. Sua imagem de líder popular era reforçada pela convivência frequente com a população e pela capacidade de transformar eventos públicos em momentos de forte identificação política, algo incomum entre governadores da época.
A gestão também procurou manter investimentos em áreas estratégicas como infraestrutura, educação e saúde, ao mesmo tempo em que enfrentava as limitações impostas pelo cenário econômico nacional. O desafio era conciliar a expansão dos serviços públicos com uma realidade fiscal cada vez mais restritiva, agravada pela instabilidade econômica que ainda marcava o início dos anos 1990.
Nos primeiros anos de governo, Ronaldo consolidou uma liderança que ultrapassava a administração estadual. Sua popularidade fortaleceu aliados, reorganizou o cenário político da Paraíba e ampliou a influência de Campina Grande nas decisões do governo estadual, alterando o equilíbrio de forças que predominava desde a redemocratização.
CAPÍTULO 3 – Obras, políticas públicas e gestão
O governo Ronaldo Cunha Lima priorizou investimentos em infraestrutura e na ampliação de serviços públicos, mantendo projetos voltados à melhoria da mobilidade, da educação e da saúde. Mesmo enfrentando restrições financeiras, a administração buscou dar continuidade a programas iniciados em governos anteriores e executar novas intervenções em diferentes regiões da Paraíba.
Na educação, a gestão promoveu ações voltadas à expansão da rede estadual e ao fortalecimento do ensino público. Na saúde, buscou ampliar a estrutura de atendimento e modernizar unidades existentes. Também foram executadas obras de pavimentação, recuperação de rodovias e investimentos em abastecimento de água, considerados essenciais para o desenvolvimento regional.
Outro aspecto marcante do governo foi a valorização da cultura. Poeta reconhecido nacionalmente, Ronaldo incentivou iniciativas culturais e manteve uma relação próxima com artistas e intelectuais paraibanos. Essa característica contribuiu para fortalecer sua imagem pública e diferenciou seu estilo de governar em relação a outros líderes políticos do estado.
Embora não tenha sido um governo marcado por grandes obras simbólicas como o de seu antecessor, a administração buscou consolidar políticas públicas permanentes e ampliar a presença do Estado no interior, preservando a imagem de um governo voltado para o contato direto com a população e para a descentralização administrativa.
CAPÍTULO 4 – A interrupção do mandato e o legado
O governo Ronaldo Cunha Lima sofreu uma mudança decisiva em abril de 1994, quando o governador deixou o cargo para disputar uma vaga no Senado Federal. Conforme determinava a Constituição, o vice-governador Antônio Mariz assumiu o comando do Estado e concluiu o restante do mandato, encerrando um ciclo iniciado com a eleição de 1990.
Apesar de governar por pouco mais de três anos, Ronaldo deixou uma marca significativa na política paraibana. Sua liderança consolidou um grupo político que influenciaria as eleições estaduais nas décadas seguintes, especialmente por meio da atuação de aliados e familiares, entre eles seu filho, Cássio Cunha Lima, que anos depois também ocuparia o Palácio da Redenção.

Mais do que pelas ações administrativas, Ronaldo ficou conhecido pela combinação entre política e literatura. Seus poemas, discursos e estilo de comunicação contribuíram para construir uma imagem singular no cenário político brasileiro, aproximando-o da população e tornando-o uma das figuras mais populares da história da Paraíba.
A eleição de 1990 consolidou Ronaldo Cunha Lima como um dos protagonistas da Nova República na Paraíba. Sua passagem pelo governo representou a continuidade da consolidação democrática iniciada em 1986 e preparou o terreno para um dos períodos mais intensos da política estadual, marcado pela sucessão de Antônio Mariz, José Maranhão e, posteriormente, pela ascensão de Cássio Cunha Lima.
Série Especial | Memória do Poder
Uma produção documental do Fonte83 sobre os governos que marcaram a política paraibana desde a redemocratização.
Memória do Poder – Capítulo 1: Tarcísio Burity e o retorno da democracia




