Suspensão do futebol não é medida extrema, é uma escolha pela vida

Por Fonte83 - 05/03/2021

A pandemia do novo Coronavírus tem devastado o Brasil, que contabiliza quase 2 mil mortos por dia. No futebol, o vírus, que causa a doença covid-19, já fez vítimas fatais, como os treinadores Marcelo Veiga, morto em dezembro, e Ruy Scarpino, que já foi técnico do Campinense e faleceu nessa quarta-feira (3).

 Na Paraíba, a situação não é diferente. O estado vem mantendo uma média de mais de 80% de ocupação em Unidades de Terapia Intensiva (UTI) e registrou, só nessa quinta (4), 1.385 novos casos e 24 mortes. Com base nisto, o procurador do Ministério Público da Paraíba (MPPB), Valberto Lira, recomendou a suspensão de todas as competições esportivas no estado. A medida também foi solicitada em âmbito nacional para a Confederação Brasileira de Futebol (CBF).

A pergunta é: o futebol deve parar por conta da pandemia?

Francisco Varela Neto

Por mais que corriqueiramente eu discorde das decisões do procurador Valberto Lira no âmbito do futebol paraibano, que na minha visão são quase sempre políticas, dessa vez eu preciso concordar com seu movimento e dos Ministérios Públicos do Brasil, que vão recomendar à CBF a suspensão de todas as partidas de futebol no país.

A crise sanitária que vivemos está em seu pior momento desde o início da pandemia deste traiçoeiro vírus. Minha concordância vem também com um apelo para que não só o futebol pare, mas para que o país pare em mais um lockdown. As vidas precisam ser preservadas acima de qualquer coisa. Não é momento para pensar abaixo disto. Valberto e os MPs, desta vez, estão mais do que certos.

Halan Azevedo

Tem, deve e precisa parar. Qual a lógica em se manter os jogos e as viagens das numerosas delegações dos clubes (muitas vezes intermunicipais e estaduais, como no caso da Copa do Nordeste) em meio a pior fase da crise sanitária e moral (apenas no Brasil) do novo Coronavírus?.

A crise é moral porque neste país muita pouca coisa é respeitada. Vivemos num faz de contas ‘enganatório’ no futebol (não apenas nele), onde boa parte dos jogadores fingem respeitar as regras de distanciamento social, mas vivem aglomerados em festas fora dos seus Centros de Treinamento. Acha que é mentira? Veja nas redes sociais deles.

Como garantir que eles não estão contaminados sem testagem diária ou a cada dois ou três dias (o que é impossível, diga-se de passagem) e não vão disseminar o vírus durante suas viagens?. Nem mesmo a Série A do Brasileirão, a principal divisão do futebol nacional, escapou de ter jogador contaminado atuando em campo, quanto mais campeonatos de menor destaque, como o Nordestão e o Paraibano.

O perigo do novo Coronavírus e de suas cepas cada vez mais contagiosas e perigosos está aí. O perigo é para todos: jogadores, dirigentes, árbitros, auxiliares, gandulas, jornalistas, narradores, comentaristas, técnicos e comissão. É para todos, mesmo para quem (infelizmente) não acredita nele.

Eu sou torcedor. Tenho clubes (sim, no plural) para torcer. Durante a pandemia, vibrei assistindo futebol na TV, na internet ou ouvindo os jogos no rádio. O futebol me serviu como uma das únicas válvulas de escape diante do cenário nefasto da pandemia. Foi um analgésico injetado na veia a cada gol do meu clube. Me fez esquecer, mesmo que por 90 minutos a cada jogo, o caos que assola o país.

Mas, BASTA. Chega. Acabou a ilusão de se iludir. Não dá mais pra conviver com isso. Questionar essa necessidade de paralisação temporária no mundo da bola aqui no Brasil chega a parecer, penso eu, com sadismo. O mesmo sadismo que o genocida que ocupa a cadeira de presidente tem a cada vez que fala na pandemia.

A cada vez que ele enche a boca para questionar o distanciamento, as máscaras e a vacina. O sadismo que ele tem a cada vez que abre a boca para chamar de ‘mi-mi-mi’ o sofrimento direto das mais de 260 mil famílias devastadas com parentes mortos pelo vírus e indireto de toda uma população cansada do abandono do Estado brasileiro para enfrentar essa crise.

Que os campeonatos sejam suspensos por 15, 20, 30 ou 40 dias. A hora de agir e evitar que nossa tragédia seja pior já passou, só podemos agora remediar e aliviar a dor que virá. E ela, a dor, virá na minha família, na sua, na do seu colega, amigo, companheiro de trabalho ou até de um desconhecido. A certeza que temos hoje é de que a dor de perder alguém por esse vírus maldito virá para alguma das quase 2 mil famílias que diariamente perdem seus parentes.

Antes que você possa questionar, o problema financeiro dessa possível paralisia no futebol é um capítulo à parte deste aqui. Aqui falamos da proteção à vida. Até de quem pode fazer pouco caso dela.