Em 2010, o prêmio Nobel de Literatura disse que a América Latina era refém de clichês da esquerda

Por Fonte83 - 27/09/2020

O escritor peruano premiado com o Nobel de Literatura Mario Vargas Llosa, disse, em 2010, em entrevista à Revista Veja que a América Latina era refém de clichês da esquerda que esterilizaram a cultura e abominaram a racionalidade econômica. O Fonte83 relembra essa entrevista.

O que mudou na sua vida nos últimos seis dias, desde que o senhor foi anunciado como vencedor do Prêmio Nobel de Literatura?

Eu acreditava que minha atual temporada em Nova York seria muito sossegada. Tranquilidade já não tenho na minha vida faz muitos anos, mas pensei que, de quarta a domingo, quando não teria de dar aulas na Universidade Princeton, estaria livre para escrever e ir ao cinema, ao teatro, a exposições e a concertos de músicas. Imaginei um semestre maravilhoso. Mas, eis que recebo essa ligação telefônica, às 5h30 da manhã, com a notícia de que tinham me dado o Prêmio Nobel de Literatura. Às 6h o fato se tornou público, e apenas vinte minutos depois minha casa virou um pandemônio. Havia lá dentro pelo menos vinte pessoas, e eu só conhecia uma delas. Desde então, minha vida tem sido uma loucura indescritível 24 horas por dia. À noite desconectamos o telefone, mas sempre fica um celular ligado, e as pessoas entram em nossa casa por ali. É devastador. Em certos momentos, tenho vontade de desaparecer. O sismo provocado pelo prêmio chega a setores sem nenhuma relação com a cultura e com a literatura. Recebi uma avalanche de cartas, fax e mensagens de e-mail. Há desde manifestações carinhosas de amigos até disparates monumentais, como uma proposta para investir o dinheiro do prêmio em uma fábrica de sorvetes.

O que o senhor vai fazer com o cheque, equivalente a 1,5 milhão de dólares?

Pergunte à minha mulher. Na minha casa, as finanças estão nas mãos dela. Não preciso me preocupar com nada. Eu nem vejo o dinheiro. Minha mulher me dá umas gorjetas de vez em quando.

Um site do governo cubano afirmou que a sua premiação equivale à do dissidente chinês Liu Xiaobo, homenageado com o Nobel da Paz. Ambos seriam agentes do império americano. O que o senhor acha dessa comparação?

Sinto-me muito honrado. Tenho uma grande admiração por Liu. O entusiasmo universal com a economia da China faz esquecer que o país é governado por uma ditadura. A abertura existente no campo econômico desaparece no político. Os críticos do governo são condenados a levar a vida nas catacumbas. A China é uma ditadura capitalista dominada por uma nomenclatura que não se move, petrificada, enquanto a brutalidade contra qualquer forma de dissidência é exatamente igual à dos tempos do comunismo. É preciso aplaudir a decisão do comitê norueguês de premiar Liu. Ele trouxe isso tudo à tona.

Por que é tão difícil para os intelectuais da sua geração abandonar as ideias obsoletas da esquerda?

A esquerda tem o controle do establishment cultural. Ela domina o mundo acadêmico, as editoras e até os setores da cultura de jornais e de revistas de direita. Isso dá um poder de chantagem enorme à esquerda. Todo escritor, desde muito jovem, sabe que não ser de esquerda significa defrontar com portas fechadas. Por outro lado, ser esquerdista garante regalias. A esquerda fracassou em tudo, menos no controle da cultura. Isso foi possível porque a direita é muito ignorante e também por não ter se preocupado em utilizar a cultura ideologicamente, politicamente. A esquerda, sim. Como resultado, muitos intelectuais e artistas, inclusive aqueles que não militam na esquerda, jamais se atrevem  criticá-la. Isso não ocorre apenas na América Latina. Conheci um ambiente assim na França dos anos 60. Não ser de esquerda dava muita dor de cabeça.

Foi o que aconteceu quando o senhor rompeu com Cuba, em 1971?

Sim. Quando rompi abertamente com Cuba, parecia que eu tinha contraído a peste. Eu era atacado por todos os lados em manifestos muito violentos. Desde então, tive de dedicar uma parte considerável da minha vida não apenas a defender minhas ideias, mas também a dizer o que eu não sou. Na lógica dos patrulheiros, quem não é comunista só pode ser nazista, defender o apartheid na África do Sul e ser a favor da guerra do Vietnã. Explicar cada dia, cada semana, que não se é nada disso é um trabalho muito chato e incômodo. Por isso, muitos escritores dizem que são de esquerda só para serem deixados em paz.

O senhor lamenta esse fardo?

Não, porque isso tem me dado muita liberdade e me obrigou a pensar o tempo inteiro em minhas opiniões. Esse patrulhamento me obriga a me definir constantemente.

Por que os intelectuais latino-americanos não concebem a figura de um artista liberal em economia?

Essa é uma palavra satanizada. O liberalismo econômico foi identificado com a exploração, com a riqueza e com as ditaduras. Chegou-se a essa ideia grotesca de que os liberais são automaticamente defensores das ditaduras militares. A realidade desmente essa noção. Como se explica, por exemplo, que esquerdistas radicais como o presidente Lula, que não acreditavam na democracia e eram contrários ao mercado, à iniciativa privada e aos investimentos, tenham se convertido a essas ideias depois de chegar ao poder? A realidade fez com que compreendessem que as políticas liberais são as únicas eficazes. Isso foi muito bom para a América Latina. Antes, a ideologia de esquerda impregnava não só a cultura, mas os governos. Até os regimes de direita conduziam políticas econômicas populistas.

Essa súbita conversão da esquerda a princípios liberais não é uma estratégia de tomada de poder?

Esse processo não é tão claro. Há contradições e resquícios de ideias velhas, mas a orientação geral é boa. Que governo, hoje, se atreveria a promulgar medidas como as que tomou Alan Garcia, no Peru, em 1987, ao tentar nacionalizar todo o sistema financeiro?

Chávez, talvez?

Bem, talvez Chávez, que é de um anacronismo completo, uma criatura cavernícola, um militarote bruto e semianalfabeto. Seu governo é cru, tosco. De resto, a América Latina avançou: o liberalismo está entranhado na esquerda, mesmo que a palavra não apareça no seu discurso. Lula nunca faria uma ode ao liberalismo, mas sua política econômica está impregnada de doutrina liberal. Isso é muito positivo. Lamento apenas que Lula, em política internacional, faça coisas como abraçar um ditador repugnante como Fidel Castro, enquanto um dissidente está morrendo numa greve de fome. Isso me desconcentrou, entristeceu, indignou. Também não entendo por que Lula abre as portas para o ditador do Irã, Mahmoud Ahmadine-jad. Esse senhor deveria ser objeto de ojeriza internacional, não ser recebido com honras de Chefe de Estado respeitável em uma democracia como o Brasil. Pode haver razões geopolíticas para essa atitude de Lula. Mas não existem justificativas éticas. Lula parece querer passar a seguinte mensagem: “Sim, estou fazendo políticas econômicas liberais. Mas não me vendi ao imperialismo”.

Na campanha presidencial brasileira, a candidata Dilma Rousseff, do PT, tem atacado as privatizações.

Espero que seja só demagogia eleitoral e não se reflita em um retrocesso nas privatizações, caso ela seja eleita. Não credo que possa retroceder. Seria suicídio.

Como o senhor avalia a sua fracassada candidatura à Presidência do Peru em 1990?

Foi uma ingenuidade pensar que havia clima favorável para o tipo de reformar liberal que eu queria implantar. Pouco antes, havíamos obtido sucesso na campanha contra a nacionalização dos bancos no governo de Alan García, e isso me levou a acreditar, equivocadamente, que o país queria um governo liberal. Minha campanha, contudo, serviu, a um propósito em um país profundamente contaminado pelo populismo e pelo socialismo. Fizemos uma campanha clara, categórica, centrado no programa, nas ideais. Atualmente, há consenso a respeito dos conceitos impronunciáveis naquele período. Isso veio, de certa forma, do nosso trabalho político. Nenhum governante pensaria, hoje, me nacionalizar bancos, por exemplo. Mas eu nunca mais entraria numa campanha. Durante os três anos de atividade política, parei de escrever e, praticamente, de ler. Foi um sacrifício para mim.

Como é, para um escritor, o esforço de comunicar com as massas?

Terrível. A linguagem é preciosa para o escritor. Quando você está submerso nas massas, há muita pressão para rebaixar a fala, de forma a ser entendido pelo maior número possível de pessoas. É preciso refletir e simplificar, simplificar e repetir. No final, acabava traindo a mim mesmo e o que há de mais sagrado para o trabalho do escritor. Quando se tem de fazer cinco discursos por dia, não há como evitar cair nos clichês e na linguagem morta do público profissional.

No seu livro de memórias, Peixe na Água, o senhor fala da relação com seu pai, a quem conhecei apenas aos 10 anos de idade. De que maneira isso afetou sua carreira como escritor?

Meu pai considerava literatura coisa de maricas, ou de boêmio. Creio que me aferrei à literatura porque foi a forma de resistir ao meu pai. Nossa relação sempre foi difícil. Nos primeiros anos da minha vida, quando meu pai estava afastado, fui muito mimado pelos meus familiares, talvez para cobrir a vergonha que a família da minha mãe, muito católica, sentia pelo divórcio. Quando meu pai afinal apareceu na minha vida, foi um golpe.

O senhor já fez psicanálise?

Não fiz e não faria. Para um escritor, pode ser perigoso. Claro que muitos artistas fazem psicanálise, sem prejuízo de sua obra. No meu caso, prefiro manter minhas neuroses, de alguma forma, obscuras. Elas são uma matéria-prima para o meu trabalho.