Dito mago, Paulo Coelho revelou não ter saco para discípulos à Veja

Por Fonte83 - 12/07/2020

Dito, por ele mesmo, com um mago, o escritor Paulo Coelho, brasileiro que tem uma das maiores vendagens de livros de todo o mundo, foi entrevistado pela revista Veja em agosto de 2001, pela jornalista Thaís Oyama. Reveja abaixo a entrevista, onde ele fala sobre o seu papel como mago, sobre os discípulos e comenta como era tratado pela sociedade acadêmica.

Seus livros têm falado cada vez menos do esoterismo. O senhor ainda se considera um mago?

A ideia do mago é muito mais uma questão de percepção do universo. É uma maneira de olhar o mundo além da realidade correta. Mas eu tenho vários livros que não tocam em magia. Meus livros falam de questões filosóficas.

Seria esse o ponto em comum entre eles, na sua opinião?

O ponto em comum é uma coisa chamada estilo. Do meu primeiro livro até agora, eu tenho mantido um estilo que é absolutamente direto, enxuto. Vou cortando, cortando, até chegar à essência da coisa. No começo, isso foi mal interpretado. Achavam que era uma coisa superficial. Mas é essa característica que dá aos meus livros o seu aspecto único.

Depois de tanto sucesso, as críticas ainda o incomodam?

Eu sou um autor muito polarizador: as pessoas me amam ou me odeiam. Estou acostumado. Mas a única crítica que me magoou não foi dirigida a mim. Foi quando disseram que meu leitor era burro. Eu não quero generalizar. mas existe um fascismo cultural no país.

O senhor se sente perseguido por ele?

Acho que são perseguidos por ele todos os que não se enquadram num certo padrão, que é o de valorizar o que é incompreensível e inacessível. As pessoas que escrevem esse tipo de coisa ficam numa torre de marfim, sem saber o que se passa em torno delas. Acham que estão abafando, que estão todo mundo escutando o que elas dizem. Só que não sabem que ninguém dá ouvidos a elas. De que adianta um livro que impressiona mas não é lido? O que eu disse sobre James Joyce é verdade: ele é ilegível, ilegível.

Mas livros como Ulisses e Finnegans Wake, de Joyce, são considerados marcos do modernismo, talvez dos mais geniais do século XX. O senhor acha que a sua obra vai sobreviver também?

O fato de a obra sobreviver não quer dizer que ela seja lida. Eu tentei ler Ulisses, não consegui e achei que era burro. Só que eu não sou burro, Ulisses é que é ilegível. Mas as pessoas se acovardam muito para falar das coisas. Você tem sempre de passar a ideia que entendeu tudo. E a culpa não é sua, a culpa é dos caras que escreveram. Eles têm a obrigação de ser claros. Burro é quem não sabe se explicar.

Mesmo um livro como Sidarta, do Hermann Hesse, é uma coisa mal-acabada. O cara não soube acabar o livro, entendeu? Termina com aquela frase: “Tem que olhar o rio”. Que rio pô? Acho que Hermann Hesse não sabia como termina o livro e meteu essa história aí de rio.

Hesse é um prêmio Nobel…

Sim, mas eu tenho o direito de dizer isso sobre ele, até porque foi um escritor que me marcou muito. O fato de Sidarta acabar mal não invalida o resto do livro.

Houve uma época em que o senhor dizia que era capaz e promover magias como fazer ventar, por exemplo. Hoje se arrepende dessas declarações?

Não me arrependo porque isso é verdade.

O senhor pode fazer ventar agora?

Não, não faço mais. Isso é bobagem. Não preciso mais fazer demonstrações públicas. 

E magias em benefício próprio? O senhor dizia que costumava abrir o trânsito com a força do pensamento. Ainda faz isso?

Não, de jeito nenhum. Não vou gastar energia com isso, Já fiz, já passou.

Não fica mais invisível, como dizia ficar?

Não, isso é inútil. Gasto minhas energias com outras coisas agora.

Então, o senhor abriu mão da magia?

Talvez desse tipo de magia. Acho que faz parte do aprendizado brincar um pouquinho. Depois, tem de falar sério. Descobri que essas coisas não são importantes. Esse negócio de fazer chover, por exemplo. Pô, o que que isso vai me ajudar? Além disso, já cheguei a dar três grandes demonstrações públicas do que eu sou capaz e acho que isso basta.

Quais foram elas?

Uma foi para o jornal O Globo, em 1987. Eu disse que fazia ventar, a jornalista pediu para fazer e eu fiz (na reportagem mencionada, a jornalista não pede ao escritor que faça ventar. Relata ter ficado impressionada com o fato de uma forte ventania ter ocorrido logo após ela ter perguntado se ele era de fato um mago). A segunda foi para Marília Gabriela, assim que o presidente Fernando Collor foi eleito.

Ela me perguntou como seria o seu governo. Eu disse: daqui a dois anos ele se ferra (a apresentadora informou, por meio de sua assessoria, que o episódio não ocorreu em seu programa. A terceira foi quando o Jô Soares me perguntou se eu sabia o nome do namorado da Zélia (então ministra da Economia, que teve um romance com o colega Bernardo Cabra). Eu dei as iniciais (o apresentador disse que nunca perguntou a Paulo Coelho o nome do namorado da ex-ministra. Informado de que o próprio escritor havia relatado o episódio, disse que talvez não se lembrasse).

É uma etapa ultrapassada, então?

Digamos que foi um período de brincadeira, e brincar é permitido a todo mundo, até porque a vida é muito lúdica. Eu não tiro o valor dessa época em que via essa coisa da magia até com um certo deslumbramento.

O senhor não se considera mais um mago, portanto?

Vou me considerar a vida inteira, mas não no sentido esotérico, isso eu nunca me considerei. É no sentido de uma percepção que os seres humanos têm…Aí ficou essa coisa de mago. mas eu serei lembrado, se for lembrado, como escritor.

O que fez com que o senhor desistisse de sua candidatura à Academia Brasileira de Letras?

Foi um sinal. Não foi medo de perder para a Zélia Gattai, não foi nada disso. Foi exatamente assim: na terça-feira, dia seguinte ao da morte de Jorge Amado, fui dormir candidato. Tomei café da manhã candidato e fui andar na praia. Fui andar já para me programar para essa tarefa: teria de cancelar alguns compromissos no exterior, começar a fazer as visitas, todo aquele ritual da Academia. Mas, na hora em que me sentei na areia para fumar um cigarro antes de andar, veio aquilo: “Não se candidate”.

Uma voz?

Não, não foi uma voz. Foi um sinal interior muito claro. E eu decidi obedecer, mesmo contra a minha vontade.

O senhor chegou a receber manifestações de apoio de algum acadêmico?

Nem de apoio nem de hostilidade.

O que o atrai na possibilidade de tornar-se um acadêmico?

O que me atrai é a possibilidade de diálogo. A Academia é um lugar onde você vai encontrar pessoas inteligentes, de todo tipo de tendência. Existe esse convívio, esse diálogo do qual eu sinto vontade de participar.

E existe também o fato de que isso significaria o seu reconhecimento enquanto escritor?

Tem tudo isso. A Academia é um lugar muito respeitado no Brasil. Tanto é que todo mundo quer entrar para a Academia.

O senhor não se acha devidamente respeitado?

O respeito principal eu tenho, que é o respeito do meu leitor. E não tenho complexo. Eu sou um ótimo escritor. Um ótimo scritor. E sou vanguarda.

Quais as características de sua obra que a fazem ser vanguarda, na sua opinião?

Primeiro, o fato de ela ser rejeitada pelo sistema acadêmico. E depois o fato de o público gostar dela. Porque o público sempre pensa à frente.

É verdade que o senhor guarda num cofre à prova de fogo as críticas que são publicadas a seu respeito?

Verdade. Porque as pessoas falam barbaridades! E porque eu quero deixar registrado que a minha trajetória não foi um mar de rosas. Quando minha obra for analisada, não quero que pensem: um belo dia, ele escreveu um livro e vendeu no mundo inteiro. Não foi assim, não. Depois, essas críticas estão todas assinadas. Serão avaliadas também.

Seria uma espécie de revanchismo programado para a posteridade?

Não é revanchismo, mas cada um é responsável pelo que escreve.

A escritora Rachel de Queiroz declarou que tentou ler um livro seu, mas não conseguiu passar da página 8. O senhor ficou ofendido?

Eu olhei todos os meus livros e nenhum começa na página 8. Com prefácio e tudo, eles vão começar lá pela página 10. Acho que a Rachel estava brincando.

O senhor tem uma boa autoestima, não? 

Eu diria que sou uma pessoa absolutamente convencida do que faço e absolutamente convencida de que o que faço é bom. 

O senhor diz ter sido influenciado por três escritores: William Blake, Jorge Luis Borges e Henru Miller. O que considera ter herdado de cada um?

De Blake, o aspecto visionário. De Borges, o jeito de combinar realidade com delírio. E, de Miller, a espontaneidade de narrativa.

O tema preferido de Miller, o sexo, também interessa?

Ainda não me senti maduro para falar de sexo. Fiz dua tentativas, em Brida e Veronika Decide Morrer, mas acho que não consegui me expressar. O assunto, porém, me interessa muito. Até porque já li muito sobre o tem a ejá pratiquei muito também. Minha geração teve uma relação muito saudável, muito libertária com o sexo.

O senhor já declarou ter vivido experiências radicais nessa área. O senhor vive um casamento aberto?

Já vivi, não mais. Aqui em casa o jogo é duríssimo (o escrito é casado há 21 anos com a artista plástica Christina Oiticica).

Um jornal chileno afirmou que o senhor teve um romance com Cecília Bolocco, quando ela já mantinha um relacionamento com o ex-presidente argentino Carlos Menem. É verdade?

Cecília é uma amiga muito querida, que eu conheço desde a época em que era apresentadora da CNN. Eu me encontrei com ela em outubro passado, quando fui convidado para dar uma palestra em Santiago do Chile. Tinha jornalista no salão do hotel, na piscina, nos corredores. Ela é altamente visível, eu também. Se tivesse havido qualquer outra coisa que não um café, você acha que as pessoas não iriam perceber? Isso de outubro é uma bobagem. 

Pode-se concluir que houve uma relação anterior a outubro, então?

Não, não se pode concluir nada. Estou te relatando o negócio de outubro.

Mas eu poderia perguntar se no passado…

Você pode imaginar o que quiser.

O senhor dizia que, na qualidade de mago, tinha alguns discípulos no Brasil e fora dele. Ainda tem?

Infelizmente. Quer dizer, retiro o infelizmente. Tenho porque sou obrigado. Mas eu não tenho o menor saco. Tenho muita preguiça e muito pouca paciência.

E o senhor fala com J. (empresário que mora na Holanda e a quem o escritor se refere como seu mestre em alguns de seus livros)? 

Falo eventualmente.

O senhor dizia que costumava falar com ele inclusive por telepatia.

Não, não. Telepatia dá muito trabalho, um negócio sacal. É por telefone ou fax mesmo.