Decretamos falência múltipla de vidas

Por Fonte83 - 23/12/2020

Quantos gumes tem a faca que está fazendo todos cortarem na própria carne? Quantos pesos e quantas medidas há na discussão da crise generalizada que atinge empregados, empregadores e governos?

Sempre que eu vejo a discussão sobre decretos governamentais limitando horários em estabelecimentos, ou isolamento social, ou qualquer outra decisão para barrar o crescimento descontrolado dos números de mortos e infectados pelo novo Coronavírus, me pergunto: por que nós ainda estamos nesse patamar do debate? Já não deveríamos ter avançado nisso?

Não avançamos! E é como voltar a estaca zero. Como se a doença estivesse sendo descoberta agora, mesmo já tendo se passado quase uma gestação – nove meses.

No princípio era o discurso de que ninguém estava preparado. E não estávamos mesmo. Nenhum país do planeta Terra previa isso. E ficou aí. Estacionamos, todos.

Ficou tudo limitado ao isolamento social e aos cuidados com higiene pessoal, métodos comprovadamente mais eficazes no combate à doença enquanto a vacina não chega.

E enquanto se vê levantar polêmicas sobre se fecha estabelecimentos, se reduz horário de funcionamento, enquanto esperamos atitudes governamentais para minimizarem a dor dos que estão decretando falência e demitindo, só demitindo, nós nos esquecemos que existe uma responsabilidade nossa também.

Num domingo desses, à noite, passei em uma das avenidas principais do bairro do Geisel, em João Pessoa. Só passei, garanto. Eu não vinha de nenhuma aglomeração. Ao meu lado meu filho disse espantado: Mãe, o que está acontendo ali?

Minha resposta: nada demais filho, apenas a falta de noção, de empatia, de compaixão, das pessoas que pensam já estarem vacinadas contra a covid-19.

Três bares grandes, um próximo ao outro, totalmente lotados. Mas, muito lotados. As pessoas se batiam umas nas outras sem máscaras, sem nenhum cuidado.

O tempo passou, a doença avançou, só nós estagnamos. Governos, nenhum deles – federal, estadual, municipal -, não conseguiram pensar medidas econômicas para minimizar a crise e fazer pesar menos nos instintos humanos o capitalismo cruel que esgota a empatia e coloca como prioridade o cada um por si e Deus por todos.

Cidadãos, não todos, mas grande parte, relaxaram, se despreocuparam e contaminaram. Saíram para bares, baladas, e todas as espécies de festas possíveis. Voltaram para casa e passaram a doença para a mãe, o avô, o tio da vizinha. Mataram, morreram.

Todas essas discussões já são vencidas, essa é a verdade. Nós já devíamos estar discutindo como tratar as sequelas deixadas nos pacientes sem plano de saúde que não têm acesso a centros de reabilitação. Sim, pacientes inúmeros estão sendo jogados em casa, quando se salvam, sem um acompanhamento decente para sua cura total.

Devíamos estar planejando como tratar a mente dos que ficaram trancados, isolados por meses a fio, o psicológico deles e dos profissionais de saúde que já ultrapassaram o sentido da exaustão, já não há mais sinônimo para o limite dessas pessoas que, em sua maioria, não terão acesso a esse tipo de tratamento.

A reestruturação dos pequenos, micro e grandes  empresários e como garantir o retorno ao emprego de milhões que estão sem esperanças era o que devia estar na pauta hoje. 

Mas onde nós estamos? Na estaca zero, no ponto de partida.

A tragédia em números
Até ontem a Paraíba tinha 160.611. Mais de 3,5 mil pessoas morreram da doença. São 3.563 famílias que perderam pais, mães, filhos, sobrinhos…

O que a eleição tem a ver
No período eleitoral, e para isso a gente não pode fechar os olhos, os políticos se preocuparam pouco, ou quase nada, com a pandemia e levaram as pessoas às ruas.

As consequências…
É que os mais fragilizados física e financeiramente estão pagando o pato e o está saindo bem caro.