Mersinho Lucena colocou o dedo numa ferida que o MDB terá de tratar antes que ela deixe de ser apenas um incômodo e passe a comprometer a estratégia eleitoral do partido na Paraíba.

Na entrevista que ele me concedeu hoje, o deputado fez questão de delimitar seu próprio território. Está na oposição e, eleitoralmente, pretende se comportar como oposição: Cícero Lucena para o Governo e Veneziano Vital do Rêgo e André Gadelha para o Senado. Chapa completa. Sem atalhos, sem voto pela metade e, principalmente, sem ajudar a engordar candidaturas do campo governista.

O problema começa quando esse mesmo padrão é colocado diante do MDB.

Dos seis deputados estaduais da legenda comandada por Veneziano, quatro já mantêm movimentos políticos que desafiam a lógica de uma chapa fechada da oposição. Fábio Ramalho, Felipe Leitão, Camila Toscano e Tovar Correia Lima declararam apoio a Nabor Wanderley, do Republicanos, e isso não se trata de uma escolha eleitoral sem consequências para o MDB.

Nabor está no campo governista e disputa justamente uma das vagas ao Senado — o mesmo terreno em que Veneziano tentará renovar o mandato. Portanto, cada liderança emedebista que trabalha pelo republicano ajuda a fortalecer um adversário direto do próprio presidente estadual da legenda.

A equação fica ainda mais delicada diante das articulações em torno das suplências. O nome de Daniella Ribeiro, mãe do governador Lucas Ribeiro, apareceu entre as possibilidades discutidas para uma composição ao Senado. Se uma configuração dessa natureza prosperar, o constrangimento político aumenta: um voto de uma liderança do MDB em Nabor não representaria apenas o fortalecimento de um concorrente de Veneziano, mas também ajudaria uma composição conectada diretamente ao núcleo do Governo que o partido pretende derrotar nas urnas.

É alimentar o adversário por duas pontas.

À primeira vista, a solução pareceria simples: Veneziano deveria chamar os seus, cobrar fidelidade e lembrar que partido pressupõe algum grau de unidade. Mersinho, porém, introduziu na conversa o argumento que torna essa cobrança muito mais complicada.

Como exigir dos deputados aquilo que o próprio MDB ainda não conseguiu exigir de seus prefeitos?

O número é desconfortável. O próprio Veneziano já reconheceu publicamente que, dos 24 prefeitos eleitos pelo MDB na Paraíba, apenas 11 estavam alinhados à candidatura de Cícero Lucena ao Governo. Os demais chegaram à atual configuração carregando compromissos anteriores ou fizeram escolhas diferentes da orientação partidária.

E é exatamente aí que a fala de Mersinho ganha peso.

Se Fábio, Felipe, Camila e Tovar precisam ser chamados à ordem porque suas escolhas para o Senado não acompanham integralmente o projeto da oposição, o que fazer com os prefeitos emedebistas que também não acompanham o partido na disputa pelo Governo?

Cobrar de uns e relativizar a posição de outros produziria uma fidelidade partidária por conveniência.

Mersinho, portanto, não retirou de Veneziano o direito de cobrar. Fez algo politicamente mais incômodo: colocou um preço nessa cobrança. Se houver enquadramento, o critério precisará valer para todos.

Esse talvez seja o verdadeiro problema que o MDB terá de administrar daqui para frente. Mais do que convencer os quatro deputados ou qualquer outra liderança a rever posições, Veneziano precisa definir até onde vai a autonomia individual e onde começa o compromisso com o projeto coletivo do partido.

Porque existe uma diferença entre conviver com dissidências e permitir que elas fortaleçam diretamente os adversários da própria legenda.

E, quando a eleição coloca esses mesmos adversários frente a frente, essa diferença deixa de ser detalhe.

Vira conta.

E alguém, dentro do MDB, terá de fechá-la.