A depressão é uma condição complexa que ultrapassa, e muito, a ideia de simplesmente estar triste ou desanimado. Ela pode interferir no sono, no apetite, na concentração, na disposição, nas relações sociais, na produtividade e, principalmente, na capacidade de sentir prazer em atividades que antes faziam parte da rotina. Em muitos casos, tarefas aparentemente simples como levantar da cama, sair de casa, organizar o dia ou iniciar uma atividade podem exigir um esforço muito maior. Por isso, falar sobre depressão exige responsabilidade e uma compreensão ampla de saúde. Dentro desse cenário, o exercício físico vem conquistando um espaço cada vez mais relevante como parte das estratégias de cuidado e promoção da saúde mental.

Nas últimas décadas, a ciência passou a investigar com maior profundidade a relação entre movimento e saúde mental. Uma ampla revisão sistemática e meta análise em rede publicada no BMJ, em 2024, analisou 218 estudos randomizados, envolvendo mais de 14 mil participantes, e encontrou evidências de que diferentes modalidades de exercício podem contribuir para a redução dos sintomas depressivos. Caminhada, corrida, treinamento de força e outras práticas apresentaram resultados relevantes. Isso muda uma percepção ainda comum de que o exercício serve apenas para emagrecer, melhorar a estética ou aumentar o condicionamento físico. Quando bem prescrito e incorporado à rotina, ele pode atuar sobre diferentes dimensões da saúde.

O QUE ACONTECE NO CÉREBRO E NO ORGANISMO?

Quando uma pessoa se exercita, o efeito não fica restrito aos músculos. O organismo responde de maneira sistêmica. O exercício está relacionado a adaptações neurobiológicas importantes, envolvendo mecanismos associados à neuroplasticidade, à resposta ao estresse, à função cerebral e à regulação de processos inflamatórios. Também existem efeitos sobre sistemas de neurotransmissores relacionados ao humor, à motivação e à sensação de recompensa. Portanto, quando falamos que o movimento pode beneficiar a saúde mental, não estamos tratando apenas de uma percepção subjetiva de “sentir-se melhor depois do treino”. Existem respostas fisiológicas complexas sendo estudadas para compreender como o exercício pode participar desse processo.

Outro aspecto importante está relacionado à neuroplasticidade, ou seja, à capacidade do sistema nervoso de se adaptar e reorganizar em resposta aos estímulos. O exercício físico é um desses estímulos e tem sido associado a mecanismos relacionados a fatores neurotróficos, entre eles o BDNF, fator neurotrófico derivado do cérebro, importante para processos de adaptação e funcionamento neural. Embora a depressão seja multifatorial e não possa ser explicada por um único mecanismo biológico, essas descobertas ajudam a compreender por que cuidar do corpo e movimentá-lo regularmente pode repercutir também sobre aspectos da saúde cerebral.

O EXERCÍCIO TAMBÉM MODIFICA A RELAÇÃO DA PESSOA COM A PRÓPRIA ROTINA

Os benefícios, porém, não acontecem somente dentro do cérebro. Existe uma dimensão comportamental e social extremamente importante. A depressão frequentemente leva à redução das atividades diárias, ao isolamento e à perda progressiva de experiências que anteriormente proporcionavam prazer, interação ou sensação de realização. Nesse contexto, inserir gradualmente uma rotina de exercício pode representar a retomada de pequenas ações, como sair de casa, cumprir uma tarefa, estabelecer horários, encontrar outras pessoas e perceber que ainda existe capacidade de evolução.

Imagine alguém que inicialmente consegue caminhar por dez minutos e, depois de algumas semanas, percebe que consegue caminhar vinte. Ou uma pessoa que começa um treinamento de força com grandes limitações e passa a executar movimentos que antes pareciam difíceis. Esses avanços podem parecer exclusivamente físicos, mas carregam uma dimensão importante de autonomia e percepção de competência. Por isso, em determinados contextos, o resultado de um programa de exercícios não deveria ser analisado apenas pelo peso corporal, percentual de gordura ou quantidade de carga levantada. Recuperar disposição, confiança para realizar tarefas e participação na própria rotina também pode representar evolução.

TREINAMENTO DE FORÇA E SAÚDE MENTAL

Durante muitos anos, a associação entre exercício e saúde mental esteve muito ligada às atividades aeróbias. Caminhar, correr, pedalar e nadar continuam sendo estratégias importantes, mas o treinamento de força também passou a receber maior atenção científica. Uma meta análise publicada no JAMA Psychiatry encontrou redução significativa de sintomas depressivos associada ao treinamento resistido. Esse achado amplia o significado da musculação e de outras formas de treinamento de força. Elas não precisam ser entendidas somente como estratégias para hipertrofia, estética ou desempenho esportivo.

O desenvolvimento da força está diretamente relacionado à funcionalidade e à capacidade de realizar atividades cotidianas. Quando uma pessoa percebe que consegue levantar, carregar, empurrar, caminhar e executar tarefas com mais segurança e menos esforço, existe uma mudança concreta na relação com o próprio corpo. Isso é particularmente relevante quando consideramos adultos e idosos, para os quais preservar força e independência também significa preservar autonomia. Força não é apenas performance. Força é uma capacidade física essencial para a vida, e cuidar do corpo também pode fazer parte do cuidado com a mente.

QUAL É O MELHOR EXERCÍCIO PARA QUEM ENFRENTA DEPRESSÃO?

Essa talvez seja uma das perguntas mais frequentes, mas a resposta não deveria começar pela modalidade. O melhor exercício é aquele que pode ser realizado com segurança, respeita a condição clínica, considera as preferências individuais e, principalmente, possui possibilidade real de continuidade. Uma prescrição tecnicamente perfeita, mas impossível de ser mantida, perde grande parte de sua utilidade. Para uma pessoa enfrentando sintomas depressivos, inclusive, iniciar uma atividade pode representar um desafio considerável, pois redução de energia, motivação e iniciativa podem fazer parte do próprio quadro.

É justamente por isso que a prescrição precisa considerar o indivíduo antes de considerar apenas o exercício. Em alguns casos, começar com poucos minutos de caminhada pode ser mais adequado do que estabelecer imediatamente uma rotina extensa. Em outros, o treinamento de força pode gerar maior identificação e adesão. Há ainda pessoas que se beneficiam mais de atividades coletivas ou de modalidades que proporcionem maior interação social. Frequência, volume e intensidade podem evoluir progressivamente. O objetivo inicial não precisa ser alcançar uma grande performance, mas construir uma relação possível, segura e consistente com o movimento.

NÃO É SOBRE DIZER “VÁ TREINAR QUE PASSA”

Existe um cuidado fundamental quando abordamos exercício físico e depressão. Transformar as evidências científicas em uma mensagem simplista pode ser perigoso. Depressão não é falta de força de vontade, preguiça ou ausência de disciplina, e dizer para uma pessoa simplesmente “ir treinar” desconsidera a complexidade da condição. Dependendo da gravidade e das características individuais, o cuidado pode envolver acompanhamento psicológico, avaliação médica, tratamento medicamentoso e outras estratégias terapêuticas.

O exercício deve ser compreendido como uma ferramenta que pode integrar esse cuidado, e não como substituto automático das demais intervenções. Essa visão reforça a importância da atuação multiprofissional e da comunicação entre profissionais de Educação Física, médicos, psicólogos e outros profissionais envolvidos. Quando diferentes áreas trabalham de maneira integrada, existe maior possibilidade de oferecer uma abordagem que considere a pessoa como um todo, e não apenas um sintoma ou uma capacidade física isolada.

DICA DA ESPECIALISTA | PRISCILA CARTAXO

Quando falamos em exercício físico e depressão, um dos maiores erros é esperar que a pessoa esteja motivada para começar. A redução da energia, da iniciativa e do interesse pelas atividades pode fazer parte do próprio quadro depressivo. Por isso, a estratégia não deve ser cobrar grandes resultados logo no início, mas construir possibilidades. Começar com uma frequência, duração e intensidade compatíveis com aquele momento, estabelecer pequenas metas e evoluir progressivamente pode tornar o exercício mais sustentável.

É nesse ponto que avaliação e acompanhamento profissional fazem diferença. Não se trata simplesmente de colocar alguém para treinar, mas de compreender quem está à nossa frente e prescrever o movimento de que essa pessoa precisa naquele momento. O exercício não substitui o acompanhamento médico ou psicológico quando indicado, mas, inserido de maneira responsável em um cuidado multiprofissional, pode ser um importante aliado na recuperação da autonomia, da funcionalidade e da qualidade de vida.

MOVIMENTO TAMBÉM É CUIDADO

Quando prescrevemos exercício físico, não estamos trabalhando somente músculos, articulações ou capacidade cardiorrespiratória. Existe uma pessoa por trás de cada avaliação, de cada exercício e de cada evolução. Em alguém que enfrenta a depressão, conseguir iniciar uma atividade, manter uma rotina, perceber o corpo ficando mais capaz ou simplesmente voltar a ocupar espaços que haviam sido abandonados pode representar muito mais do que uma melhora no condicionamento físico.

Por isso, talvez o maior aprendizado seja compreender que saúde física e saúde mental não deveriam caminhar por estradas separadas. O corpo influencia a mente, a mente influencia o corpo, e cuidar de um significa também olhar para o outro. Quando existe avaliação, individualização, acompanhamento profissional e integração com os demais cuidados necessários, o exercício ganha um significado muito maior do que simplesmente treinar.

Movimentar o corpo não significa ignorar a depressão. Significa acrescentar mais uma ferramenta ao cuidado. E, algumas vezes, um pequeno movimento pode representar o início de uma grande mudança na relação de uma pessoa com a própria vida.