Qual é a afiliação mais resistente da política paraibana: o partido ou a parentela?
Olhar para os palanques da Paraíba em 2026 é como observar uma árvore genealógica em tempo real.
Tem pai. Tem filho. Filha. Tem mãe. Tem irmão. Tem marido. Tem mulher. Tem tio. E, quando o sangue não alcança, chegam o casamento, a aliança e a chapa para esticar os galhos.
Linda Lewin enxergou isso décadas atrás.
Em Política e Parentela na Paraíba, publicado no Brasil em 1993, a historiadora americana estudou como as relações familiares se transformaram em estrutura de poder no estado.
Sua ideia de “parentela” é mais interessante do que a simples constatação de que parentes fazem política. Trata-se de uma família ampliada, capaz de incorporar casamentos, alianças e relações políticas e de ocupar espaços do poder local ao nacional.
Epitácio Pessoa é talvez o personagem mais fascinante dessa aparente contradição.
Em 1919, estava na França, chefiando a delegação brasileira na Conferência de Versalhes, quando soube que havia sido eleito presidente da República. Discursava entre diplomatas, circulava pela política internacional, projetava a imagem do homem cosmopolita.
Aqui, porém, havia outro Epitácio.
Era também o chefe de uma oligarquia paraibana organizada em torno de uma extensa rede familiar e política. O liberal que circulava em Versalhes era, em casa, o patriarca de uma poderosa engrenagem de parentela.
Passou mais de um século.
Seria intelectualmente preguiçoso dizer que nada mudou. Mudou quase tudo: voto, instituições, sociedade, fiscalização, partidos, imprensa, eleitor. Mandato não passa de pai para filho em cartório.
Mas experimente olhar para 2026…
A árvore continua frondosa.
No grupo governista está Lucas Ribeiro. Sua mãe, a senadora Daniella Ribeiro, compõe a chapa como suplente de Nabor Wanderley ao Senado. Seu tio, Aguinaldo Ribeiro, é deputado federal. Antes deles, Enivaldo Ribeiro já havia sido prefeito, deputado estadual e federal.
Nabor, por sua vez, é pai de Hugo Motta, presidente da Câmara dos Deputados. E Hugo também traz política dos dois lados da certidão: é neto de Edvaldo Motta e Francisca Motta.
Uma parentela encontra a outra e as duas sobem no mesmo palanque.
A vice de Lucas acrescenta outro ramo.
Lígia Feliciano é casada com o deputado federal Damião Feliciano. O filho do casal, Gustavo Feliciano, ocupa hoje o Ministério do Turismo. O outro filho, Renato Feliciano, foi agraciado com a segunda suplência de Nabor.
O primeiro suplente de João Azevedo, deputado Chico Mendes, mal foi anunciado na nova função, tratou de votar a esposa, Nill Mendes, em seu lugar para a Assembleia.
Do outro lado, Cícero Lucena disputa o governo enquanto seu filho, Mersinho Lucena, ocupa uma cadeira na Câmara dos Deputados. E a filha Janine é suplente de Veneziano Vital, que disputa a reeleição ao Senado.
Este também integra composição política familiar como herdeiro de outra linhagem conhecida da política paraibana: filho de Nilda Gondim e Antônio Vital do Rêgo, irmão de Vital do Rêgo Filho, neto do ex-governador Pedro Gondim e sobrinho neto do ex-senador Argemiro de Figueiredo.
E há os Cunha Lima, cuja história política atravessa gerações e continua presente no tabuleiro, com Diogo Cunha Lima no posto de candidato a vice-governador ao lado de Cícero Lucena. Em Campina Grande, o primo Bruno Cunha Lima comanda a prefeitura.
No PL também a política familiar de 2026 abandonou qualquer cerimônia.
Efraim Filho é filho do ex-senador Efraim Morais. Seu irmão, George Morais, deputado estadual, disputa agora uma cadeira de deputado federal. Eles já vêm d alinhagem de Inácio Bento, político da época dos coronéis no Vale do Sabugi.
Até aí, temos uma configuração conhecida: pai, filhos, continuidade…
Só que a árvore resolveu florescer.
Carol Morais, mulher de Efraim, ocupa a segunda suplência de Marcelo Queiroga na disputa pelo Senado.
E a candidata a vice de Efraim é Nayana Pontes, mulher do deputado federal Cabo Gilberto.
Nesse grupo, a política vestiu o pijama e foi para o quarto.
A frase é uma brincadeira. A fotografia, não.
E é justamente aqui que Linda Lewin volta a ser útil.
O familismo político não pode ser reduzido à acusação preguiçosa de que alguém só chegou onde chegou porque é filho, mulher ou irmão de alguém. Isso seria negar trajetória, voto e mérito individual sem examiná-los.
O fenômeno interessante é outro.
Famílias acumulam patrimônio político.
Um sobrenome conhecido. Prefeitos aliados. Vereadores. Diretórios. Relações em Brasília. Doadores, militantes, cabos eleitorais, memória eleitoral. Um telefone que será atendido. Uma porta que não precisará ser arrombada porque alguém da família já tem a chave.
O mandato não é hereditário.
As condições para disputá-lo estão longe de ser igualmente distribuídas.
Talvez esteja aí a versão contemporânea da parentela descrita por Lewin.
No começo do século XX, famílias se articulavam para controlar parcelas do Estado num sistema oligárquico.
Em 2026, elas precisam disputar voto, enfrentar adversários, prestar contas à Justiça Eleitoral e sobreviver ao julgamento diário das redes sociais.
A parentela teve de aprender democracia.
Aprendeu.
E aprendeu também a trocar de partido.
Essa talvez seja a imagem mais curiosa da Paraíba contemporânea. As legendas nascem, mudam de nome, fazem federação, rompem, reconciliam, trocam de lado.
As famílias atravessam tudo isso.
Algumas chegam ao ponto de ocupar posições em campos políticos distintos, construindo pontes que sobrevivem às brigas partidárias.
Por isso talvez estejamos procurando a unidade básica da política paraibana no lugar errado.
O partido continua necessário. Dá legenda, fundo eleitoral, tempo, estrutura, número.
Mas a família entrega algo que o partido nem sempre consegue oferecer: continuidade.
Linda Lewin chamou de parentela.
Mais de cem anos depois de Epitácio Pessoa, basta olhar com alguma atenção para os palanques de 2026.
A árvore continua lá.
Só trocaram algumas folhas.



