Na política, vice nunca é apenas vice e na Paraíba deixou de ser acessório faz tempo. A escolha costuma dizer muito sobre o projeto, as alianças e, principalmente, sobre a estratégia eleitoral. Foi exatamente nesse ponto que Nilvan Ferreira resolveu tocar durante entrevista ao programa Ô Paraíba Boa.

Ao colocar em xeque a preferência do senador e pré-candidato ao Governo da Paraíba, Efraim Filho (PL), pela primeira-dama de Campina Grande, Juliana Cunha Lima, Nilvan abriu uma discussão que já existe nos bastidores, mas que poucos estavam dispostos a fazer publicamente.

E a provocação faz sentido.

Desde o início do ano, Efraim trata Juliana como sua principal opção para a vice, chegando a chamá-la de “vice dos sonhos” e afirmando reiteradas vezes que ela representa seu plano principal para a composição da chapa.

Mas a política muda rápido. E talvez mais rápido do que a própria estratégia da oposição.

O argumento apresentado por Nilvan é simples: Campina Grande atravessa um momento administrativo delicado. Independentemente de quem seja o responsável pelos problemas enfrentados pela gestão municipal, é inegável que a administração virou alvo constante de críticas. E campanha também é percepção.

A pergunta passa a ser inevitável.

Vale a pena atrelar uma candidatura ao Governo justamente a uma gestão que, hoje, vive desgaste político?

É aí que a fala de Nilvan deixa de ser apenas um alerta e passa a ser uma reflexão estratégica.

Porque uma vice pode agregar votos.

Mas também pode importar problemas.

Se o eleitor associa Juliana ao governo Bruno Cunha Lima, a oposição corre o risco de transformar uma eleição estadual em um plebiscito sobre a administração de Campina Grande. E isso pode deslocar completamente o foco que Efraim tenta construir, o de apresentar um projeto sólido e sem ideologias para toda a Paraíba.

Há outro aspecto levantado por Nilvan que merece atenção.

Segundo ele, existem outros nomes capazes de representar a chapa e a base política deveria ser ouvida antes da definição.

A observação também não é irrelevante.

Quando uma escolha nasce de consenso, ela fortalece o grupo.

Quando nasce de preferência pessoal, abre espaço para insatisfações silenciosas.

Na política, silêncio quase nunca significa concordância.

Significa espera.

Por outro lado, também existe um argumento favorável à escolha de Juliana.

Ela carrega o sobrenome Cunha Lima, é de Campina Grande, tem boa imagem pessoal, atua em pautas sociais e pode ampliar a presença feminina na chapa, algo defendido pelo próprio Efraim ao justificar o convite.

Ou seja, não faltam qualidades individuais.

A dúvida levantada por Nilvan não parece ser sobre Juliana.

Parece ser sobre o momento político que ela representa.

E essa diferença é enorme.

No fim das contas, a declaração produz um efeito que talvez Efraim preferisse evitar neste momento da pré-campanha: a abertura de um debate público sobre uma decisão que, até então, parecia praticamente consolidada.

Isso ajuda?

Depende.

Se a base reagir positivamente e fechar questão, a polêmica morre rapidamente.

Mas se outras lideranças começarem a defender alternativas, a declaração de Nilvan pode ter sido apenas o primeiro capítulo de uma disputa interna que ainda estava escondida.

Na política, algumas críticas desaparecem em poucas horas.

Outras apenas verbalizam aquilo que muitos já comentavam nos corredores.

A de Nilvan parece pertencer à segunda categoria.