Repentinamente, a Paraíba começou a escutar cobranças de lealdade a “projetos”, como se os grupos políticos que hoje andam juntos tivessem há muito construído uma aliança de longo prazo. Segundo já disse o próprio vice-governador, Lucas Ribeiro, que deve assumir o lugar hoje ocupado por João Azevêdo e ser candidato à reeleição —, “projeto coletivo tem que estar acima de qualquer interesse pessoal”.

Eu, particularmente, não sei de qual “projeto coletivo” tanto se fala nas hostes do PSB e do Progressistas — o Republicanos de Hugo Motta é pragmático demais para dar importância a discurso para inglês ver. Talvez seja o “coletivo” que montou a chapa governista, com Lucas Ribeiro candidato a governadorJoão Azevêdo e Nabor Wanderley candidatos ao Senado.

Pois não foi assim que essa chapa foi decidida? Em reuniões fechadas a três entre Aguinaldo RibeiroJoão Azevêdo Hugo Motta, que decidiram, de cima para baixo, quem iria representar PP, o PSB e o Republicanos, sob os protestos de Cícero Lucena Adriano Galdino, que não aceitaram engolir sem ao menos uma cara feia, o prato feito atirado sobre a mesa — o presidente da Assembleia refez recentemente os cálculos.

Já Cícero Lucena, não. E estamos falando do Prefeito reeleito da maior cidade do estado, portanto, a maior liderança política do grupo. E que chegou ao grupo político que hpje governa a Paraíba antes mesmo dos Ribeiro. Estes, lembremos, estavam na oposição ao “projeto” de João Azevêdo desde 2014, quando Aguinaldo Daniella Ribeiro se elegeram deputados federal e estadual, respectivamente, na chapa oposicionista liderada por Cássio Cunha Lima. Nas eleições municipais seguintes, foram eles que indicaram os candidatos a vice-prefeito de Romero Rodrigues Bruno Cunha LimaEnivaldo Ribeiro, em 2016, e Lucas Ribeiro, em 2020.

Nas eleições de 2018, a família Ribeiro não apenas apoiou, como integrou a chapa majoritária de oposição contra o então candidato a governador, João Azevêdo. Como lembrado na última postagem, Daniella Ribeiro, mãe de Lucas, foi candidata a uma das vagas ao Senado e se elegeu apoiando Lucélio Cartaxo para governador, ao lado de Cássio Cunha Lima, candidato à outra vaga.

Então, vejamos. Se dependesse exclusivamente da vontade política da família Ribeiro, o “projeto” que hoje defendem com tanto fervor teria se encerrado em 2018, e João Azevêdo jamais teria sido governador. E João Azevêdo foi porque defendeu a “continuidade” do governo de Ricardo Coutinho — a quem serviu por oito anos — e, mesmo sendo um ilustre desconhecido, venceu no primeiro turno. Enfim, se formos usar de rigor lógico, Ricardo Coutinho é quem pode cobrar lealdade ao “projeto” que hoje João Azevêdo comanda.

Foi só em 2022 — há pouco mais de três anos, portanto — que Lucas Ribeiro passou a fazer parte do “projeto”, isso quando foi indicado candidato a vice-governador na chapa de João Azevêdo. Até aí, ele era o vice-prefeito do oposicionista Bruno Cunha Lima, prefeito de Campina Grande.

Tudo isso para concluir da seguinte forma. A candidatura de Lucas Ribeiro a governador é tão legítima quanto a de Cícero Lucena, embora considere necessário reconhecer que o atual prefeito de João Pessoa tem luz própria, pois foi submetido várias vezes ao escrutínio das urnas. O mesmo não se pode dizer de Lucas Ribeiro.